VOU ALI E JÁ VENHO, MÃE.

| | 2026/4 Antologia Breves narrativas do cotidiano: entre histórias e versos do dia a dia | Eidi Martins
Publicado em 23 de Abril de 2026 ás 15h 03min

A famosa frase, quase um refrão,
Mãe, vou só ali, é rapidinho, então…
“Só ali” … “é rapidinho” … que ilusão,
e eu acredito, de coração.

 

A que horas voltas? vem a questão,
“Já venho…” responde, sem precisão;
duas palavras simples, sem peso aparente,
mas perigosas, bagunçam a minha mente.

 

Passa meia hora, depois passa mais,
o tempo se alonga, a paz já se desfaz;
uma hora, duas, cresce a aflição,
e o silêncio vira preocupação.

 

Envio uma mensagem: “Onde estás?”
visualizada…, mas a resposta? jamais.
Outra tentativa: “Está tudo bem?”
e o tempo responde: demora também.

 

Vinte minutos… enfim, um sinal,
“Sim…” chega curto, seco e banal.
Só “sim”?! É sério? só isso então?
e a mente dispara em doída aflição.

 

Será que aconteceu, com quem estará?
Por que não responde, o que haverá?”
minha calma é um fio prestes a romper,
num filme que insiste em se refazer.

 

Até que aparece, leve, despreocupado, casual,
“Mãe, relaxa… está tudo normal!”
“Tava com os amigos, nem ouvi chamar…”
Ah, não ouviu chamar, difícil de acreditar.

 

E Eu ali, num misto de emoção,
entre o alívio e um longo sermão;
três horas guardadas na ponta da voz,
mas o amor fala mais alto entre nós.

 

Respiro fundo, deixo acontecer,
ele está aprendendo a crescer;
ganhando asas, querendo voar,
descobrindo o mundo, seu próprio lugar.

 

E eu sigo, no mesmo caminhar,
com o peito apertado, tentando confiar;
porque ser mãe é isso, no fundo, também,
sorrir por fora… e por dentro, amém.

 

Mas o coração sempre acelera além,
toda vez que escuto sem desdém
“Vou ali e Já venho, mãe.”

Comentários

Eidi, que texto fascinante e verdadeiro! Parabéns!!! Senti que foi feito pra mim...

Neiva Guarienti Pagno | 23/04/2026 ás 20:46
Responder

Penso que nós Mâes somos feitas da mesma essência, só mudamos de endereço. Esse poema nasceu de um episódio que aconteceu dias atrás. Meu primogenito já de maior, saiu para jogar bola na cidade visinha, a uma distancia de mais ou menos uns 140km longe de casa, e isso me despertou o quanto ainda me preocupo com ele, com a falta de notícia e o coração desacelerta e consigo dormir na madrugada quando escuto o barulho do carro encostando la fora.

Eidi Martins | 27/04/2026 ás 19:25

Este é um conto real, em formato de poema, que a poetisa, mamãe, Eidi Martins nos presenteou! Explora a universalidade da relação entre mães e filhos, focando, especificamente, no processo de crescimento, na conquista da autonomia e na ansiedade materna! É o retrato fiel da transição da infância para a juventude sob o olhar maternal!

Lorde Égamo | 24/04/2026 ás 13:03
Responder

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