Vida Real

| Crônica | 2026/05 Antologia Dias escritos em prosa | Rose Correia
Publicado em 07 de Maio de 2026 ás 11h 53min

Título: Vida Real 

 

Às vezes, a vida entrega crachás diferentes daqueles que imaginávamos receber.

 

Tem gente que passa anos estudando, atravessando noites cansativas, lidando com frustrações silenciosas, acumulando certificados, esperança e olheiras… para, no fim, ouvir: — A vaga disponível no momento é outra.

 

E quase sempre aceitamos.

 

Não porque seja o sonho. Mas porque boletos não esperam sonhos amadurecerem.

 

Outro dia pensei nisso ao observar uma mulher saindo cedo para trabalhar. Caminhava depressa, carregando uma marmita numa mão e o cansaço na outra. Talvez já tivesse imaginado uma vida diferente. Talvez tivesse planos maiores quando mais nova. Mas ali estava ela, seguindo.

 

O curioso é que a maioria das pessoas vive atravessando pântanos sem perceber.

 

Há empregos que parecem lama. Ambientes pesados, salas desgastadas, relações difíceis, tarefas que sugam aos poucos aquilo que temos de mais leve. Mesmo assim, seguimos andando como quem aprendeu a sobreviver sem afundar.

 

E sempre aparece alguém dizendo: — Você consegue.

 

Às vezes é incentivo. Às vezes é só uma forma elegante de nos empurrar para continuar suportando.

 

O mais estranho é que o ser humano se acostuma. Acostuma-se ao excesso de cobrança, ao salário apertado, aos ambientes adoecidos e até às pequenas humilhações diárias mascaradas de oportunidade.

 

Mas existem coisas que nem o cansaço deveria arrancar da gente.

 

A identidade é uma delas.

 

Porque há ambientes que tentam nos convencer, pouco a pouco, de que precisamos nos moldar para caber. Como se, para permanecer, fosse necessário abandonar convicções, silenciar valores ou vestir versões menores de nós mesmos.

 

E talvez a verdadeira coragem não esteja apenas em continuar trabalhando apesar da lama.

 

Talvez esteja em continuar sendo quem se é dentro dela.

 

Conheço pessoas brilhantes ocupando lugares minúsculos. Gente que merecia palco recebendo apenas corredor. Pessoas inteiras sendo resumidas por um crachá qualquer.

 

E ainda assim… continuam.

 

Porque a vida real raramente permite pausas dramáticas. Na maioria das vezes, ela apenas exige que levantemos cedo no dia seguinte.

 

Talvez o problema não esteja no trabalho simples. Trabalho digno nunca será vergonha. O problema é quando o esforço custa demais e devolve de menos.

 

Quando atravessamos o pântano inteiro e percebemos que, no fim, não era reconhecimento que nos esperava — era apenas sobrevivência.

 

E talvez seja isso que mais cansa: não a lama nos pés, mas a tentativa constante do mundo de fazer com que a gente esqueça quem é só para continuar caminhando.

 

Sinopse:

Entre corredores cansativos, ambientes sufocantes e caminhos lamacentos, uma reflexão sobre trabalho, sobrevivência e a difícil tarefa de permanecer fiel à própria identidade.

 

Moral:

O mais difícil não é atravessar os pântanos da vida, mas continuar sendo quem somos depois deles.

 

Rose Correia.

Comentários

Texto leve, mas reflexivo

Gilmair Ribeiro da Silva | 07/05/2026 ás 15:45
Responder

A crônica de Rose Correia é uma lição de resiliência. trata-se de uma crítica social e psicológica que foca na forma como a sociedade contemporânea lida com a produtividade e o emprego. É importante que se mantenha a integridade pessoal diante das diversidades!

Lorde Égamo | 07/05/2026 ás 18:15
Responder

Tempos modernos... Charles Chaplim

ADAILTON LIMA | 08/05/2026 ás 11:29
Responder

Há pessoas boas de lábia e retórica, só que sem educação escolar,mas como por magia conseguem estar no alto escalão, por outro lado temos um cidadão estudadas e altamente erudito, inteligentíssimo sendo rebaixadas a ser o motorista do primeiro sujeito, porque o segundo, preferiu um trabalho limpo e digno para não ter que se corromper

Keila Rackel Tavares | 08/05/2026 ás 14:06
Responder

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