Versos, Enxada e Teclado

Poemas | | Liliane Inácia da Silva
Publicado em 29 de Julho de 2026 ás 21h 09min

Antes dos meus dedos deslizarem pelo teclado,

houve a enxada nas mãos dos meus pais.

Antes dos versos,
houve sulcos na terra
e sementes lançadas.

Enquanto eles semeavam esperança
no chão vermelho do cerrado,
eu aprendia, sem saber,
que toda colheita
tem seu tempo de amadurecer.

Meus pais nunca escreveram poemas no papel.

Escreveram-nos diretamente na terra arada.

Cada semente lançada, cada amanhecer enfrentado,
cada tarde de sol ou de chuva, cada mão calejada
era um verso silencioso que o tempo guardou.

 

Hoje, entre a caneta e o teclado,
apenas continuo o que a enxada começou.

Descubro diferentes universos, mas meus versos
têm cheiro de terra, de café coado na hora,
de fogão a lenha, de doce no tacho e de carinho repartido.

Não escrevo sozinha. Em cada palavra,
há um pouco das mãos que lavraram o chão
para que eu pudesse cultivar a memória.

 

Minhas raízes alimentam meus poemas,

porque meu chão foi preparado
pela coragem de um pai e pela ternura de uma mãe.

Sei que minhas palavras nascem das mãos
que um dia abriram a terra, para que eu pudesse
abrir caminhos com os versos.

 

A enxada escreveu na terra o início da minha história.

Tudo o que escrevo hoje é apenas a colheita
do que meus pais plantaram um dia.

 

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