UM SONHO MUITO LOUCO

Poemas | | Isolti Cossetin
Publicado em 05 de Outubro de 2026 ás 19h 40min

UM SONHO MUITO LOUCO

Esta noite tive um sonho
que me deixou intrigado.

Sonhei que, de repente,
os pobres do Brasil
haviam sido apagados.

Não houve despedidas.
Simplesmente desapareceram.

E agora eu quero saber:

Quem vai  a faxina
na casa da madame fazer?

Quem vai construir
as mansões dos endinheirados?

Quem vai aparar a grama
do jardim impecável?

Quem vai carregar o cimento,
assentar o tijolo,
limpar as ruas,
colher o alimento?

Quem vai dirigir o ônibus,
cuidar das crianças,
entregar as encomendas?

E, afinal,
quem vai passear com o cachorro
que tem plano de saúde?

Comecei a achar graça.

Mas parei de rir
quando percebi
que aqueles que quase ninguém vê
fazem funcionar
um país inteiro.

Os invisíveis
haviam deixado visível
a sua importância.

Foi então que pensei
nos discursos sobre igualdade,
nas promessas,
nas palavras bonitas
que se perdem depois das eleições.

Talvez tenhamos nos acostumado
tanto com a pobreza
que passamos a enxergá-la
como parte da paisagem.

Até que ela desaparecesse.

Acordei antes de descobrir
quem faria todo aquele trabalho.

Ainda bem que era sonho.

Porque, se os pobres realmente sumissem,
talvez os ricos descobrissem,
num único dia,
o quanto dependem
daqueles que insistem
em não enxergar.

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