Um poema em mim
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 16 de Março de 2026 ás 07h 23min
Um poema em mim
Sou um livro aberto,
com páginas que sussurram
ao vento da manhã.
Não tenho lombada rígida,
mas a curva suave
de um rio que se encontra com o mar.
As palavras estão em mim
como raízes fincadas na terra escura,
buscando a seiva, a verdade miúda.
Às vezes, são folhas secas —
o som do outono desprendendo-se,
o silêncio de algo que passou.
Outras vezes, sou a explosão verde
da primavera repentina,
a urgência de florescer,
a cor que não se contém nas margens.
Há versos presos na garganta,
aqueles que a coragem ainda não liberou,
como pássaros que ensaiam o voo
na segurança do ninho.
E há os poemas que dançam nos olhos,
a luz refletida em gotas de chuva,
narrativas mudas que só o outro olhar decifra.
Pontuação sou eu:
a respiração que pausa,
a vírgula que convida à reflexão,
o ponto final que é, na verdade,
um recomeço disfarçado.
Não sou feito de tinta e papel,
sou feito de silêncios longos
e de risos inesperados,
de cicatrizes que contam histórias
sem precisar de rima forçada.
O poema em mim é o espelho torto
que mostra quem eu tento ser,
e quem eu inevitavelmente sou.
É a melodia que toca mesmo quando a música parou.
É a casa onde a alma reside,
com janelas amplas
voltadas para o horizonte incerto,
pronto para receber
qualquer verso que a vida trouxer
e transformá-lo em parte de mim.
Um eterno esboço,
um rascunho sempre em andamento,
o poema que nunca se termina
porque a cada novo dia,
algo novo nasce para ser cantado.