Um Pedacinho de Sol

| Conto | 2026/10 Antologia Era uma vez uma palavra | Rose Correia
Publicado em 27 de Outubro de 2026 ás 11h 30min

Sinopse: Entre uma pequena travessura e uma descoberta inesperada, Júlia encontra um jeito especial de reconhecer a luz que ilumina seus dias. 

 

Um Pedacinho de Sol

 

Era quase um ritual. Toda vez que eu ia à casa da minha avó, mal conseguia esperar para chegar. Minha mãe sempre avisava:

 

— Júlia, nada de sair correndo!

 

— Tá bom, mãe! — eu respondia, embora minhas pernas parecessem não concordar muito.

 

Naquele sábado de manhã, estávamos quase chegando quando me preparei para disparar. Mas, antes que eu levantasse o outro pé, senti meu vestido amarelo ser puxado.

 

Era minha mãe, claro!

 

— Júlia! Eu já falei para não correr!

 

— Mas eu nem comecei! — respondi, tentando me defender.

 

Continuei andando, comportadinha, até chegarmos à casa da vovó.

 

Assim que entramos, fui logo perguntar:

 

— Mãe, posso ir até lá?

 

— Pode, mas com uma condição...

 

Balancei a cabeça, concordando, e saí correndo antes mesmo de ouvir o resto.

 

Atravessei o quintal tão depressa que uma galinha começou a cacarejar, como se estivesse me denunciando.

 

— Fofoqueira! — resmunguei, sem parar.

 

Cheguei à beira do lago e procurei com os olhos. Olhei para um lado, depois para o outro. Meu coração batia depressa. Eu precisava encontrá-la!

 

Dei mais um passo, depois outro, até que...

 

ESCORREGUEI!

 

Tentei me equilibrar, balancei os braços e fiz uma dança maluca, mas não adiantou.

 

CHLÉÉÉC!

 

Caí sentada numa poça de lama!

 

Olhei para meu vestido, minhas pernas e minhas mãos. Eu estava coberta de terra e lama! Passei a mão no rosto e acabei espalhando um pouco mais.

 

Naquele momento, ouvi:

 

— Júlia!

 

Fiquei quietinha, torcendo para que minha mãe não me visse.

 

— Júlia, onde você está?

 

Levantei a mão devagar.

 

— Aqui, mãe...

 

Ela parou diante de mim e tentou segurar o riso.

 

— Menina, o que aconteceu?

 

— Eu só escorreguei! — respondi, como se isso explicasse tudo.

 

— E por que tanta pressa?

 

Apontei para a beira do lago.

 

Entre as flores, estava ela: a minha preferida. Amarela, delicada, com as pétalas abertas como pequenos raios de sol.

 

Minha mãe se aproximou e se abaixou ao meu lado.

 

— Sabe, Júlia, essa flor parece guardar um pouquinho do sol em suas pétalas amarelas. Talvez seja por isso que você goste tanto dela.

 

Fiquei olhando para a flor, encantada.

 

— Então é como se o sol tivesse deixado um pedacinho dele aqui, mamãe?

 

Ela olhou para mim com um sorriso carinhoso e disse:

 

— É isso mesmo, minha filha. Um pedacinho de sol para alegrar os nossos dias.

 

Sorri também. Agora eu entendia por que aquela flor me chamava tanta atenção.

 

Minha mãe me ajudou a levantar e limpou um pouquinho do meu rosto.

 

— Da próxima vez, minha filha, tenha mais cuidado. Você pode admirar suas flores favoritas, mas não precisa correr tanto para chegar até elas!

 

Dei uma risadinha e segurei sua mão.

 

— Está bem, mamãe! Da próxima vez, vou devagar!

 

Olhei para minha mãe e depois para a flor. Não sabia dizer qual das duas era a mais linda, mas sabia que ambas estavam ali para mim. E, naquele instante, senti que havia muito mais sol no meu dia do que aquele que brilhava no céu.

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