Na terça-feira em que encontrei a carta, quase perdi o ônibus da escola. A culpa foi de uma caixa de correspondência que ninguém abria fazia tanto tempo que até as aranhas pareciam ter desistido dela. Ficava presa ao muro da casa número 18, numa parte da rua onde as árvores levantavam a calçada com suas raízes. Eu passava por ali desde pequena e nunca tinha visto nada dentro daquela caixa, muito menos sua portinhola aberta. Naquela manhã, porém, havia um papel branco entre as dobradiças enferrujadas. Olhei para os lados antes de puxá-lo. Era uma carta dobrada em quatro, sem envelope, escrita com uma letra inclinada que parecia ter pressa. Li a primeira frase e esqueci completamente o ônibus.
“Se você encontrou esta carta, procure a pessoa que perdeu uma terça-feira.”
Meu nome é Marina, tenho doze anos e nunca ouvi falar de alguém que tivesse perdido um dia inteiro. Perder um lápis, uma chave ou até o aniversário de alguém eu entendia. Mas uma terça-feira? Virei o papel, procurei alguma explicação e encontrei apenas outra frase.
“Pergunte pela fotografia da menina com o vestido amarelo.”
Guardei a carta na mochila e corri para a escola. Durante a aula de matemática, pensei em todas as coisas que poderiam acontecer numa terça-feira. Talvez alguém tivesse esquecido uma festa, perdido uma viagem ou faltado a um encontro importante. Minha colega Júlia disse que provavelmente era alguma brincadeira dos meninos da outra turma. Concordei com ela, mas não joguei a carta fora.
Na volta para casa, parei diante do número 18. O portão estava fechado e o jardim crescia sem cuidado. Foi quando dona Celina, que morava do outro lado da rua, apareceu com uma sacola de compras. Perguntei se conhecia a casa. Ela me observou por alguns segundos, depois olhou para a caixa azul.
— Conheço desde antes de você nascer. Por quê?
Mostrei a carta. Dona Celina leu devagar, ajeitou os óculos e ficou tão quieta que pensei ter feito alguma coisa errada. Quando terminou, devolveu o papel e pediu que eu a acompanhasse até sua varanda.
Sobre uma pequena mesa, entre revistas e um vaso de violetas, ela colocou uma caixa de fotografias. Procurou durante alguns minutos até encontrar uma imagem de duas meninas diante de uma bicicleta vermelha. Uma delas usava um vestido amarelo.
— Esta é Helena — disse, apontando para a menina mais alta. — A outra é Teresa. Eram amigas inseparáveis.
Perguntei onde estavam agora. Dona Celina contou que Helena continuava na cidade, mas Teresa havia se mudado muitos anos antes. As duas tinham combinado de se encontrar numa terça-feira, pouco antes da mudança. Helena esperou durante horas na praça. Teresa nunca apareceu.
— Elas brigaram? — perguntei.
— Não que eu saiba. Às vezes, as pessoas deixam de se falar sem que tenha acontecido uma briga.
Achei aquilo estranho. Se eram tão amigas, bastava uma procurar a outra. Dona Celina pareceu adivinhar meu pensamento, mas não explicou nada. Apenas me entregou uma cópia da fotografia que guardava entre outras lembranças.
Passei o resto da tarde procurando pistas. Na fotografia, atrás das meninas, aparecia a fachada de uma padaria. Reconheci as janelas, embora hoje o lugar fosse uma papelaria. Fui até lá e mostrei a imagem ao proprietário, seu Augusto, que conhecia quase todas as famílias do bairro. Ele reconheceu Teresa imediatamente. Contou que, no dia da mudança, o caminhão da família quebrou perto da ponte e precisou ser consertado. A viagem atrasou, os adultos ficaram nervosos e ninguém conseguiu avisar Helena. Naquele tempo, não existiam celulares para resolver tudo com uma mensagem.
— E depois? — perguntei.
Seu Augusto deu de ombros.
— Depois a vida continuou.
Aquilo não me pareceu uma resposta muito boa. A vida sempre continua, até quando alguma coisa fica faltando. Voltei para casa com a fotografia no bolso e a sensação de que alguém conhecia o restante da história.
Na manhã seguinte, encontrei outra coisa dentro da caixa azul. Era um envelope pequeno, com meu nome escrito na frente. Não entendi como alguém sabia que eu tinha encontrado a primeira carta. Abri o envelope ali mesmo.
“Teresa voltou. Mora perto da praça. Helena ainda não sabe.”
Dessa vez, não contei nada a Júlia. Também não procurei dona Celina. Fui até a praça depois da escola e fiquei observando as casas próximas. Numa delas, uma senhora de cabelos brancos regava plantas diante do portão. Ao lado da porta, pendia uma pequena bicicleta vermelha de metal, dessas usadas para decorar jardins.
Mostrei a fotografia.
— A senhora conhece essas meninas?
Ela segurou a imagem com as duas mãos. Seus olhos percorreram os rostos, a bicicleta, a fachada da padaria. Depois sorriu de um jeito que me deixou sem saber o que dizer.
— Eu sou Teresa.
Contei sobre a carta e a caixa azul. Teresa ouviu tudo sem me interromper. Quando mencionei Helena, seu sorriso desapareceu um pouco. Disse que pensara em procurá-la muitas vezes, mas nunca soubera se seria bem recebida.
— Ela ficou esperando por mim naquele dia — explicou. — E eu nunca tive coragem de perguntar quanto tempo.
Não sabia o que responder. Adultos às vezes complicam coisas que parecem simples. Perguntei se ela ainda gostava de bolo de laranja, porque dona Celina tinha contado que as duas costumavam dividir uma fatia na padaria. Teresa começou a rir.
— Gosto. Por quê?
Na sexta-feira, comprei duas fatias de bolo com o dinheiro que guardava para comprar um estojo novo. Coloquei cada uma numa embalagem e escrevi dois bilhetes. No primeiro, convidei Helena para tomar café na praça, às quatro horas. No segundo, fiz o mesmo convite a Teresa. Não escrevi quem estaria esperando.
Cheguei à praça antes das duas e me sentei num banco próximo ao coreto. Teresa apareceu primeiro, com uma bolsa pequena e os cabelos presos. Helena chegou alguns minutos depois, caminhando devagar. Quando se viram, pararam tão de repente que pensei que uma delas fosse voltar para casa.
Mas Helena se aproximou. Teresa levantou a mão, talvez para cumprimentá-la, talvez para pedir desculpas. Não consegui ouvir o que disseram. Vi apenas que, depois de alguns instantes, as duas se sentaram lado a lado. Helena abriu uma das embalagens e empurrou metade do bolo para Teresa.
Fiquei ali até perceber que já não precisavam de mim.
Na segunda-feira seguinte, passei novamente diante da casa número 18. A caixa de correspondência estava pintada de azul, com a portinhola consertada e uma pequena flor desenhada perto da fechadura. Dentro dela não havia carta alguma.
Eu ainda não sabia quem tinha escrito os bilhetes, nem por que escolhera justamente aquela caixa. Pensei em perguntar a dona Celina, mas, quando olhei para sua varanda, ela estava regando as violetas e conversando com duas senhoras que dividiam uma fatia de bolo.
Continuei meu caminho. Pela primeira vez, achei que uma terça-feira perdida podia ser encontrada muitos anos depois.