Textos inacabados
Capítulos de livros | Conto breve contemporâneo | Pequenas histórias para entender a vida | Manoel R. LeitePublicado em 04 de Abril de 2026 ás 08h 00min
Capa comum, levemente desgastada nas bordas, algumas páginas dobradas recado do tempo passado por ali com pressa. Sem nome na capa, nem data definida. Apenas marcas de uso, discretas e insistentes, símbolo da permanência maior do que deveria sem conclusão. Não tem ordem de início. Primeiras páginas vazias, reservas de um início melhor que nunca chegou. Palavras aparece apenas algumas folhas adiante, com uma letra mais firme, quase apressada, como quem acredita saber exatamente o que estava fazendo.
“Hoje começo algo que preciso terminar.”
E, a frase não continua. Há um espaço em branco abaixo, depois outro, e então páginas inteiras sem qualquer registro. O tempo, ali, não é linear. Ele falha, interrompe, retorna sem aviso. Mais à frente, a letra muda. Menos rígida, mais inclinada, carregando algum peso antes não presente. As frases se alongam, mas não se completam. Pensamentos iniciados se desfazem no meio, ideias parecem promissoras e, de repente, abandonadas perdendo sentido antes de nascer.
“Nem tudo precisa ser resolvido agora.”
Essa frase aparece isolada, no centro da página, cercada por um silêncio de papel. Não há contexto, não há explicação. Apenas a afirmação, ou tentativa dela.
O caderno segue.
Páginas arrancadas. Não se sabe quando, nem por quê. Restam apenas os vestígios, pequenas irregularidades na lombada, sinais de algo que esteve ali. Talvez fossem páginas importantes, ou não. O que permanece não esclarece o que foi retirado.
Em um trecho, há datas. Sequência breve, organizada, como se alguém tivesse decidido retomar algum controle. As anotações são objetivas, quase práticas, distantes daquilo que veio antes. Listas, pequenos planos, observações rápidas. Nenhuma delas se estende por mais de algumas linhas.
E então, novamente, o vazio. Tentativa de organizar em pouca duração. Adiante, surgem palavras soltas. Não frases completas, mas fragmentos, “cansaço”, “recomeço”, “talvez”, “depois”. Elas não se conectam diretamente, compartilham uma mesma origem. Não explicam, apenas indicam.
O caderno não narra uma história. Expõe interrupções. Momentos em que a escrita retorna com intensidade. Linhas preenchidas com maior pressão, com urgência. Letras tornam-se menos legível, mais inclinadas, atravessando margens, ignorando limites. É possível imaginar que ali algo precisava ser dito, não para alguém, mas para não desaparecer. Porém mesmo nesses momentos, sem conclusão.
Páginas terminam antes das ideias. Gesto de escrever sendo talvez suficiente, ainda que incompleto. Em determinado ponto, aparece uma pergunta:
“Em que momento deixei de continuar?”
Não há resposta. Nem tentativa.
A pergunta permanece como as demais coisas daquele caderno, existente, mas não resolvida.
O tempo segue dentro dele de maneira irregular. Sem continuidade clara entre uma parte e outra. Versões de quem escreveu não coincidem completamente. Diferenças sutis, no traço, na escolha das palavras, na forma de interromper o pensamento. Cada retorno ao caderno feito por alguém ligeiramente diferente.
E talvez fosse. Não há despedida nas últimas páginas. Não há fechamento.
A escrita simplesmente cessa. As folhas finais voltam a ser vazias, mas não como no início. Não há expectativa nelas, apenas espaço. Um espaço não preenchido, não por falta de tempo necessariamente, mas por ausência de continuidade.
O caderno permanece.
Não como algo inacabado. Mas como algo sem pretensão em terminar