Tempo, na Calçada

| Crônica | Rose Correia
Publicado em 24 de Abril de 2026 ás 08h 39min

Sinopse: Uma espera atravessada pela fome e pelo acaso, onde o retorno se anuncia nos detalhes mais simples.

 

Tempo, na Calçada 

 

O ano era mil novecentos e noventa e seis.

 

Na inocência dos dias, havia ido até a cidade, a cento e cinquenta quilômetros de casa. Pegara carona com um velho amigo. A estrada empoeirada deixara marcas nas roupas; o chinelo também guardava a poeira do caminho, como prova silenciosa da travessia.

 

Ao chegar, seguiu direto ao hospital. Precisava fazer exames de rotina. Não sabia como voltaria — e nem se ocupava com isso. Havia urgências maiores: compreender o desconforto que insistia em permanecer.

 

Na cidade, encontrou um amigo que ofereceu pouso e comida. No dia seguinte, saiu cedo e sentou-se na calçada, confiando no acaso. Talvez alguém conhecido passasse. Talvez o caminho de volta se abrisse assim, sem aviso.

 

Enquanto esperava, observava o movimento da rua. Havia outros ali, também à espera — cada qual com seus próprios destinos suspensos.

 

Então veio o primeiro sinal: o estômago reclamou. A fome anunciava sua presença com firmeza. Mas não havia um centavo no bolso — nem para uma bala.

 

Entrou no pequeno mercadinho com passos contidos, como quem ainda decide o que fazer. Foi então que viu a moça sentada em uma banqueta, com uma bacia cheia de quiabos. As mãos trabalhavam sem pausa: ora cortava, ora atendia quem chegava.Um gesto simples, repetido, quase hipnótico.

 

Permaneceu ali por um instante, entre o cheiro e o silêncio.

 

Depois, pediu apenas um copo d’água.

 

Com ele nas mãos, voltou à calçada.

 

Esperar também era uma forma de acreditar.

 

Sabia que, por mais longa que fosse a espera, alguém passaria. Em algum momento, sempre passa.

 

O cheiro do quiabo começou a se espalhar, insistente, atravessando o ar e despertando ainda mais a fome. Mas permaneceu ali, firme, sustentando o silêncio e a vontade.

 

Até que, ao erguer os olhos mais uma vez, uma velha caminhonete branca parou.

 

Era um colega de classe — desses que o tempo afasta, mas não apaga.

 

— Sei onde mora. Te deixo lá.

 

E, naquele instante, a fome perdeu espaço. Deu lugar a algo maior: a sensação de retorno, de reencontro com o próprio lugar.

 

Ainda hoje, lembranças surgem de forma inesperada. Basta o cheiro do quiabo — e tudo volta, inteiro, como se nunca tivesse partido.

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