Templo Zu Lai: Onde o silêncio me reorganizou

Poemas | 2026/1 Antologia Quando a palavra sente | Amanda Mazzei
Publicado em 25 de Janeiro de 2026 ás 20h 21min

Cheguei sem perguntas
porque as respostas já me cansavam.
Meu corpo vinha cheio de ruídos,
minha mente, de palavras gastas
que falavam alto
e diziam pouco.


O silêncio me recebeu
sem me pedir explicações.
Ali, o tempo não corria 
respirava.

E, ao respirar,
me ensinou a parar.


Descobri que a palavra
não nasce do pensamento,
nasce do sentir.
Antes de ser escrita,
ela atravessa o corpo,
desorganiza certezas,
pede escuta.


O espaço falava sem som.
A tradição não pesava 
acolhia.
Havia sabedoria nos gestos lentos,
nos rituais discretos,
na arquitetura que sustentava
mais do que paredes:
sustentava sentido.


Caminhei por jardins
que não exigiam interpretação.

Eles existiam.
E existir, ali,
já era ensinamento suficiente.


Minhas filhas seguiam ao meu lado,
aprendendo sem saber que aprendiam.

Aprendiam o tempo,
o respeito,
a presença.

Aprendiam que estar inteira
também é uma forma de cuidado.


Minha família estava ali.
Presença que sustenta,
que compartilha o silêncio
sem quebrá-lo.
Percebi que sentir junto
é uma escrita coletiva,
feita de olhares atentos
e passos que se ajustam.


Naquele instante,
a palavra se calou em mim
para nascer de outro lugar.

Não quis explicar
quis permanecer.
Não foi construída
foi revelada.


Saí levando menos do que trouxe.
Deixei pesos, pressas, urgências.
Voltei com uma escuta mais limpa
e o entendimento de que paz
não é ausência de conflito,
mas a coragem de seguir inteira
mesmo quando o mundo insiste
em nos fragmentar.


Algumas marcas não se escrevem no papel.
Elas se inscrevem no corpo,
na memória
e naquilo que,
mesmo sem nome,
continuamos chamando de alma.

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