Teatro das Sombras
Ensaios | | Luciana Kelm | escritoraPublicado em 31 de Março de 2026 ás 19h 25min
Tentei prender o que sinto em frases certas, mas falhei. Amassei papéis que gritavam e apaguei rascunhos que pesavam demais. Existem buracos que palavra nenhuma atravessa; certos sentimentos não aceitam tradução, eles exigem o sangue. Eu, que sempre usei a escrita para respirar, entendi que há dores que não cabem no papel e incêndios que regra nenhuma apaga.
Nunca fui metade. Nunca fui limite. Eu sempre fui o transbordo. Como escreveu Dostoiévski em Noites Brancas, a minha vida foi um sonho tão real que dói acordar. Tentei me dividir com você, pedi que levasse um pouco dessa imensidão, mas você era solo raso, um deserto seco sem profundidade para me guardar. Agora, esse rio de fogo escorre sem rumo, porque o mundo ficou pequeno demais para o meu tamanho.
O que sobrou de nós é uma luz cega que apodrece em um porão esquecido, sob o pó de um sótão que ninguém visita. Você não é lembrança; é marca de caneta permanente na minha pele, o ontem sangrando vivo dentro do hoje. O tempo do nós acabou, mas você em mim é tempo infinito. Fica o mistério: será que um momento de felicidade não basta para toda a vida de um homem?
Assisto agora ao seu show da primeira fila, sabendo cada fala sua de cor. Na peça que você escolheu viver, fui expulsa do papel principal. As cortinas caíram como uma lâmina e o espetáculo acabou. Saio de cena para te amar no silêncio dos bastidores, onde ninguém bate palma e o ar é pesado. Não invento histórias, apenas narro os fatos: nossa história teve apenas o fim. Seco e sem volta.
Quando a dor para de dar ideias, escrevemos sobre o vazio que fica quando o fogo se apaga. Resta apenas a memória de um segundo inteiro de felicidade.