Ser Amábile Azevedo não é nada bom.

É carregar no nome a obrigação de amar os outros,

de compreender, de ceder,

de deixar de ser a primeira opção

para que alguém possa ocupar o primeiro lugar.

 

Ter esse transtorno

é aprender que os próprios erros

podem parecer maiores aos olhos dos outros

do que o esforço para não cometê-los.

 

É sentir que, de repente,

sou menos confiável,

menos capaz,

menos amável.

 

Para todo mundo, é mais fácil

jogar a culpa inteira no neurodivergente.

Afinal, ele é problemático.

É inconveniente.

É prepotente.

É aquele que sempre precisa se justificar.

 

Ninguém sabe o que é

sentir-se inferior e insuficiente

mesmo quando se está tentando.

Ninguém vê as batalhas

que acontecem antes de cada erro,

nem o esforço silencioso

por trás daquilo que parece tão simples.

 

Vocês dizem que eu estou me justificando.

Dizem que eu deveria esconder,

pelo resto da vida,

o nome do que me atravessa,

como se esconder o transtorno

fosse me tornar menos inconveniente.

 

Tolos.

 

Vocês não sabem que viver

também é ser imperfeito.

Não sabem que autenticidade

não combina com a obrigação

de acertar o tempo inteiro.

 

TDAH:

transtorno do déficit de atenção com hiperatividade.

 

Mas, para vocês,

somos apenas desinteressados,

desatentos,

sem compromisso,

sem honestidade.

 

Dizem que devemos aceitar

a nossa devida falta de importância.

Mas, quando insistimos,

quando tentamos outra vez,

quando permanecemos,

menosprezam o nosso esforço

e chamam de pouco

a nossa constância.

 

Talvez o problema nunca tenha sido

a nossa falta de esperança.

 

Talvez sejam vocês

que, de tanto nos dizerem

que somos insuficientes,

acabaram se tornando

a nossa desesperança.

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