Sem bagagem
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 01 de Outubro de 2026 ás 08h 52min
Sem Bagagem
Rosy Neves
Eu estou indo embora...
Sem bagagem,
sem mapas,
sem sequer uma palavra
que me diga para onde ir.
Levo apenas névoas nos olhos,
um silêncio preso à garganta
e estas mãos cansadas,
frágeis e vazias,
que já não sabem segurar
aquilo que o tempo levou.
Vou...
Como quem atravessa
um cais abandonado
quando a última embarcação
já desapareceu na neblina.
Não levo flores,
nem cartas,
nem promessas.
Deixo para trás
as pegadas que a chuva apagará,
os nomes esquecidos
nas margens do mundo,
e todos os adeuses
que nunca consegui pronunciar.
Mas a minha alma...
Ah, a minha alma
não sabe partir vazia.
Ela carrega o peso
dos séculos passados,
as lágrimas de antigos invernos,
os sonhos de quem partiu antes de mim,
e uma memória tão antiga
que já não sei
se algum dia foi minha.
Carrega estrelas mortas,
catedrais de silêncio,
portas que nunca se abriram
e um amor perdido
em alguma curva do tempo.
Eu estou indo embora...
E talvez ninguém perceba.
Porque há partidas
que não fazem barulho.
Apenas uma névoa
se desfaz sobre os olhos,
um coração silencia
e a alma, cansada,
continua caminhando...
Para além do mundo,
para além das eras,
para algum lugar
onde finalmente
o peso dos séculos
possa repousar.