Seis Décadas de Mim
Nasci inteira,
como nascem os começos:
sem saber do peso do mundo,
apenas com o espanto das descobertas.
Dos 0 aos 10,
fui riso solto,
joelhos ralados,
um coração que cabia no quintal
e acreditava que o amor
era sempre um lugar seguro.
Dos 10 aos 20,
fui vento inquieto,
sonho em construção,
um corpo aprendendo seus próprios limites
e uma alma ensaiando voos
sem ainda saber das quedas.
Dos 20 aos 30,
plantei futuros.
Entre livros, promessas e alianças,
abracei papéis que me foram dados
e outros que escolhi com esperança:
fui mulher, fui esposa,
fui mãe —
e em cada gesto,
entreguei o melhor de mim.
Dos 30 aos 40,
por fora, estabilidade.
Por dentro, rachaduras.
Aprendi que nem todo lar é abrigo,
que há silêncios que gritam,
e sorrisos que escondem tempestades.
Dos 40 aos 50,
sobrevivi.
Não é exagero,
é verbo exato.
Sobrevivi aos dias longos,
às noites que não terminavam,
ao peso de existir
num lugar onde eu já não cabia.
Vivi cercada,
limitada,
ferida —
mas não vencida.
Porque havia algo em mim
que ele não alcançava:
um núcleo intacto,
teimoso,
vivo.
Dos 50 aos 60,
rompi.
Não sem dor,
não sem medo,
não sem marcas.
Mas rompi.
Deixei para trás o que me aprisionava,
recolhi meus pedaços
e, com mãos ainda trêmulas,
comecei de novo.
Aposentei-me de uma vida que não era minha
e inaugurei outra —
mais leve,
mais minha,
mais verdadeira.
Hoje, aos 60,
não celebro apenas os anos.
Celebro a mulher
que não se perdeu de si,
mesmo quando tudo ao redor
tentava apagá-la.
Celebro o coração
que ainda pulsa com vida,
amor,
esperança,
alegria —
não apesar de tudo,
mas através de tudo.
Sessenta anos não me definem.
O que me define
é o que eu fiz com eles.
E eu fiz
sobrevivência virar força,
dor virar consciência,
e recomeço
virar liberdade.