Se os castos dos navios falassem
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 11 de Março de 2026 ás 21h 48min
Aí, se os castos dos navios falassem
com a voz áspera da maresia
que se agarra ao convés esquecido.
Se pudessem contar
as histórias guardadas no cedro
e na tinta fria da quilha.
Se o murmúrio lento
das madeiras envelhecidas
revelasse as lágrimas
que o sal e o tempo tentaram lavar.
Lágrimas mudas
de rostos debruçados na amurada
despedindo-se da areia
que nunca mais tocariam.
Lágrimas que escorreram
na face do oceano imenso
pequenos espelhos quebrados
de um adeus suspenso no ar salgado.
Rostos agora desfeitos
pinceladas desbotadas
nos rascunhos da memória
que teimam em voltar.
Esses rostos
esculpidos na saudade breve
de quem viu o horizonte
engolir o porto.
O navio, mudo testemunho,
carrega no seu casco surdo
o peso imenso do que foi deixado para trás.
Cada tábua range um nome
cada nó da corda aperta um abraço
que a distância desfez em bruma.
Se pudesses ouvir, agora,
o sussurro daquele mastro inclinado
não ouvirias apenas o vento,
mas o lamento contido
de um amor que partiu no último cais.
O cheiro a alcatrão e maresia
guardaria o perfume
dos lenços acenados,
agora pó suspenso nas correntes.
Aí, se o silêncio do mar
se rasgasse apenas para nos dar
a voz daquelas partidas.
Que segredos guardam os porões fundos,
além da escuridão e dos ratos?
Talvez o eco persistente
de um riso perdido,
ou o tremor de uma mão que soltou a outra.
Os castos, duros e resistentes,
são os guardiões teimosos
das ausências que fizeram do teu peito
um mapa de rotas nunca concluídas.
Eles levariam de volta
as lágrimas, se pudessem,
para lavarem a poeira
dos teus rascunhos amarelecidos,
onde os contornos dos rostos
se tornaram apenas sombras leves,
quase nada,
mas ainda assim, tudo.