Rua 6
| | 2026/4 Antologia Breves narrativas do cotidiano: entre histórias e versos do dia a dia | Rosemeire Santos SilvaPublicado em 28 de Abril de 2026 ás 19h 46min
Rua 6
A infância tinha o cheiro dos pés de leiteiro e o frescor das sombras generosas. Entre todas as árvores, destacava-se um pé enorme de uva-japonesa, onde a vizinhança se ajuntava ao cair da tarde. Naquela época, a Rua 6 não era apenas um caminho; era um gramado vasto onde os carros raramente ousavam passar, deixando o campo livre para os meninos e seu futebol.
A verdadeira magia, porém, despertava nas noites enluaradas. Era o ritual sagrado: os adultos carregavam suas cadeiras para a calçada para tricotar conversas, enquanto nós, as crianças, aproveitávamos cada segundo de liberdade. O ar se enchia com os gritos do pula-corda, do queima-queima, do pique-esconde e do pega-pega. E, entre um fôlego e outro, surgia discretamente o sussurro de um "pera, uva, maçã ou salada mista".
Muitas vezes, parávamos nossas brincadeiras e nos aproximávamos, silenciosos, para ouvir as histórias dos mais velhos. Algumas eram de arrepiar. O tema preferido era o homem que virava lobisomem. O clima de mistério sempre era pontuado por um vizinho que tinha um espirro tão alto, mas tão alto, que até quem morava na outra ponta do bairro ouvia. O barulho repentino nos fazia pular de susto, pois estávamos com os sentidos aguçados pelo medo.
Em noites de lua cheia, o mundo mudava de cor. Ficávamos apreensivos, tentando adivinhar quem, entre os conhecidos, seria a fera. Seria aquele homem estranho que andava desajeitado pelas esquinas? Ou, quem sabe, o mocinho todo engomado, de roupa impecável, que escondia um segredo sob o terno?
Íamos para a cama com o coração disparado. Cobríamos a cabeça com o lençol, e qualquer estalo na madeira da casa era motivo de sobressalto. Mas a curiosidade, essa eterna companheira da infância, era sempre maior que o temor. Todos se levantavam, pé ante pé, para espiar pelas frestas da janela.
— Será o lobisomem? — alguém sussurrava.
Em casa, éramos sete irmãos, além dos primos que frequentemente pernoitavam conosco. No quintal, o coro vinha dos bichos que meu pai criava: porcos, cabritos, cachorros, patos e galinhas. De repente, os animais começaram a fazer um alvoroço, como se algo os incomodasse. Veio-nos, então, a ideia temerária: abriríamos a janela. Se fosse algo perigoso, fecharíamos num golpe só.
Assim fizemos. Lá fora, algo se movia. Era uma silhueta branca, parecendo um fantasma vindo em nossa direção sob um barulho intenso. O pânico se instalou. Fechamos a janela com estrondo e corremos para as camas, atropelando-nos uns aos outros na escuridão. No caos, minha irmã mais nova bateu o dente na cabeça de um primo. O choro foi imediato e alto.
Minha mãe, despertada pelo barulho, apareceu para entender o motivo daquele berreiro. Entre soluços, contamos que havia um fantasma no quintal — naquela hora, até havíamos esquecido do lobisomem.
Ela sorriu, calma, e disse:
— Vou dar uma olhada para que vocês sosseguem. Mas fiquem quietos! Se acordarem o pai de vocês, ele ficará muito bravo.
Ficamos todos amontoados na porta da cozinha, vigiando o destino da nossa mãe com os olhos arregalados. Momentos depois, ela retornou trazendo nos braços os lençóis que haviam sido esquecidos no varal. O vento forte os agitava, criando formas fantasmagóricas e o barulho que assustava os bichos.
Resolvida a questão e desfeito o mistério, voltamos para a cama. O medo deu lugar ao alívio e, naquela noite de lua cheia, até o lobisomem foi esquecido em meio ao calor das cobertas.
Comentários
Mary Cloe nos presenteia com um texto onde narra fatos vividos, resgatando a atmosfera de uma época em que se era feliz e o tempo parecia passar mais devagar e o mundo era interpretado pela lente da fantasia infantil! Como é belo o mundo quando a gente se deixa dominar por essa ótica, essa sublime visão!
Querido Poeta, muito obrigada por suas considerações! ?