Rio de sensação
| | Antologia Nacional Família Literária: A travessia das palavras | Manoel R. LeitePublicado em 31 de Agosto de 2026 ás 10h 58min
Nasço onde a pedra guarda segredos
Fio de água ensaia seu destino
Não tenho a soberba azul dos oceanos
Carrego margens, húmus, sede e memória
Cada palavra desprende outra nascente
Cada verso procura um declive no mundo
Conheço a paciência mineral dos séculos
Passei por Tebas, bibliotecas, labirintos
Ouvi remos regressando a Vera Cruz
Molhei pergaminhos salvos de ruína
Sob minhas águas dormem vozes sem túmulo
E alfabetos que recusaram o esquecimento
Avanço pequeno diante das cordilheiras
Ainda assim rasgo a pedra pela constância
Dou frescor à raiz, espelho às luas errantes
Levo poemas onde nenhuma ponte alcança
Quem bebe de minhas águas leva outros nomes
Quem me atravessa já não possui a mesma margem
Não desejo o mar, alimento sua grandeza
Sou rio. Persistência vestida de passagem
Levo palavras vivas através de leitores e escritores
Até que outra alma se torne nascente