Retalhos que não eram meus
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 12 de Setembro de 2026 ás 09h 42min
Retalhos Que Não Eram Meus
Rosy Neves
Eu sou pedaços de retalhos
que costuraram em mim,
a metade de tudo
que nunca foi meu.
Vestiram-me de ausências,
pregaram em minha pele
os tecidos de outras histórias,
e disseram:
— Agora, cabe-te viver assim.
Tive que me diminuir
para caber em lugares
que jamais me pertenceram,
dobrar minhas asas,
calar meus sonhos,
encolher minha própria voz.
Enquanto as agulhas do destino
atravessavam meu peito,
eu sorria…
Como se não doesse.
Como se cada ponto
não levasse consigo
um pedaço daquilo
que eu realmente era.
Costuraram em mim
medos que não nasceram comigo,
culpas que não eram minhas,
silêncios que nunca escolhi,
e cicatrizes
de guerras que eu não lutei.
E eu…
Eu fui ficando pequena,
quase invisível,
entre as linhas tortas
de uma costura malfeita.
Até que uma noite
a lua tocou meu ombro
e perguntou baixinho:
— E onde está você?
Eu não soube responder.
Procurei-me
entre os retalhos,
debaixo das costuras,
nas dobras do tempo…
Até encontrar,
bem no fundo da alma,
um pequeno fio de luz
que ainda não haviam conseguido cortar.
Então puxei a primeira linha.
Depois outra.
E outra.
Desfiz, lentamente,
as costuras que me aprisionavam.
Doeu.
Mas, pela primeira vez,
a dor não era do destino.
Era a dor
de voltar para mim.
Hoje já não quero caber
em lugares estreitos.
Quero ser inteira.
Mesmo que meus retalhos
não combinem entre si.
Mesmo que minhas cicatrizes
permaneçam visíveis.
Porque descobri
que também existe beleza
naquilo que foi rasgado
e teve coragem de se costurar
com as próprias mãos.
Eu não sou mais
a metade de tudo que não é meu.
Sou o tecido inteiro
daquilo que sobrevivi.
E, com os fios
que o destino deixou cair,
eu mesma
estou bordando
quem finalmente escolhi ser.