Retalho de papel velho

Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de Meneses
Publicado em 30 de Julho de 2026 ás 12h 12min

Retalho de Papel Velho

 

Rosy Neves

 

Eu sou um retalho de papel velho,

costurado no tecido do universo,

com letras borradas e apagadas

de um século que não tem nome,

nem número.

 

O vento das eras passou por mim

como um peregrino silencioso,

levando fragmentos daquilo que fui,

deixando apenas o perfume antigo

das memórias que nem o tempo recorda.

 

Há constelações bordadas em minhas margens,

e pequenas centelhas adormecem

entre as fibras cansadas da minha alma.

Cada rasgo é uma estrela caída,

cada dobra, um segredo escondido

nas bibliotecas do infinito.

 

Silêncio...

 

Ainda escuto um Arcanjo

costurando fios de luz

sobre as feridas do firmamento.

Suas mãos não conhecem a pressa;

remendam o impossível

com linhas feitas de eternidade.

 

Talvez eu nunca tenha pertencido à Terra.

 

Talvez eu seja apenas

uma página perdida

de um livro que Deus deixou aberto

antes do primeiro amanhecer.

 

E, quando a última estrela apagar sua vigília,

alguém encontrará este velho retalho,

não para ler o que nele está escrito,

mas para ouvir o silêncio

que permaneceu vivo

entre as palavras apagadas.

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