Remendos e Moedas

Crônica | Rose Correia
Publicado em 10 de Fevereiro de 2026 ás 15h 27min

Sinopse:

Uma cena comum em uma vendinha de estrada transforma o riso em silêncio e revela, sem explicações, como julgamentos apressados podem enganar.

 

Remendos e Moedas 

 

Há lugares que parecem existir fora do relógio.

A vendinha de beira de estrada era um deles.

Era um domingo ensolarado, desses em que o mundo anda devagar, como se apenas observasse o próprio movimento.

Dentro, alguns mancebos jogavam sinuca. O estalo das bolas se misturava às risadas altas e aos comentários soltos sobre a vida.

A porta rangeu.

Entrou um senhor.

Vestia uma calça marrom já confundida com a poeira da estrada e uma camisa azul — da mesma cor do céu daquele dia — marcada por remendos antigos. Os sapatos, gastos, denunciavam muitos caminhos percorridos.

Um dos rapazes, bem vestido, o mediu de cima a baixo e comentou, sem disfarçar:

— O que será que o velho quer? Nem dinheiro pra comprar roupa tem.

O senhor não respondeu. Aproximou-se do balcão com calma. Observou os produtos por alguns segundos, como quem calcula o necessário.

Pediu algumas batatas, um pouco de farinha, um pacote pequeno de café, meia dúzia de balas coloridas e dois doces simples, embrulhados em papel fino.

O atendente separou tudo em silêncio.

O homem acompanhou cada item pousado sobre o balcão. Em seguida, levou a mão ao bolso e retirou um maço de dinheiro.

As notas apareceram espessas entre os dedos.

As risadas morreram ali mesmo.

O rapaz que havia zombado enfiou a mão no próprio bolso, quase automático. Tacteou o tecido vazio, como se esperasse encontrar alguma moeda esquecida. Não havia nada.

Seus olhos correram até a mesa de sinuca, onde o amigo segurava as moedas da partida. Ele apertou o taco com mais força do que antes e desviou o olhar.

O senhor passou as notas com paciência, afastando as maiores, até escolher algumas menores. Pagou sem pressa e guardou o troco.

O silêncio já ocupava a vendinha.

Antes de sair, voltou o olhar para os jovens. Havia um leve sorriso, sem ironia.

— A vida ensina a gente a economizar muitas coisas — disse. — Dinheiro… e julgamento.

Empurrou a porta e saiu.

Por alguns segundos ninguém mexeu.

O rapaz bem vestido pigarreou, ajeitou o taco e disse baixo:

— Bora terminar a partida.

Mas o jogo já não tinha o mesmo riso.

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