Relíquias Vivas

Ensaios | | Luciana Kelm | escritora
Publicado em 28 de Março de 2026 ás 12h 42min

Às vezes, tenho a nítida sensação de que houve um erro na entrega da minha existência. É como se o tempo, em sua pressa habitual, tivesse me deixado na década errada, ou talvez no século equivocado. Olho ao redor e, embora habite o agora, meu coração bate no ritmo de um relógio de parede antigo, daqueles que marcam as horas com um peso e uma dignidade que a modernidade desconhece. Sinto que deixei algo para trás em alguma poltrona de veludo ou em um café literário de outros tempos.

Minha vida é povoada por objetos que carregam memória. Tenho um carinho quase físico por antiguidades; um livro de páginas amareladas ou um móvel de época carregam uma densidade existencial que nenhum objeto novo consegue replicar. Existe uma raridade inerente ao que sobrevive ao tempo. Essa necessidade de preservar o que é profundo me acompanha em gestos concretos. Quando terminei de ler Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski, senti que aquela experiência não poderia apenas ser guardada na estante. Decidi emoldurar o livro e fiz uma colagem com as suas páginas para deixá-lo eternizado. Hoje, essa obra repousa na parede da minha sala, como um altar ao pensamento que me transforma.

Essa paixão pelo que é denso reflete minha própria formação e caminho. Como escritora e psicanalista, minha rotina é feita de escuta e observação, buscando sempre o que está além da superfície. Encontrei em Dostoiévski um espelho para as minhas próprias angústias; ele me ensinou que a luz e a sombra caminham juntas. Com Freud, aprendi a navegar no mar do inconsciente, buscando o que está escondido entre as vírgulas da fala. E a Filosofia, que hoje abraço como graduanda, é o meu chão firme. Ela me ensina que a pergunta é sempre mais sagrada do que a resposta pronta.

Enquanto o mundo celebra o barulho, eu celebro o silêncio. Sou amante da solitude, e é no silêncio absoluto das madrugadas que meu lado escritora verdadeiramente aflora. Escrevo sob a luz amarela de um lustre que pende sobre minha mesa de trabalho, uma verdadeira relíquia centenária de madeira maciça com cadeiras estofadas em couro legítimo. Essa mesa pertenceu a uma senhora que já se foi, e que zelava por ela com um capricho e carinho admiráveis. Hoje, mantenho esse cuidado com o mesmo zelo, passando o óleo de peroba que nutre a madeira e mantendo um centro de mesa delicado com folhas de manjericão. É nesse cenário, sentindo o aroma das ervas e o toque da madeira viva, que as palavras ganham vida.

Não nego que é difícil habitar o presente com esses valores. É raro encontrar hoje quem se sinta em casa dentro de uma biblioteca ou quem prefira a densidade de um pensamento ao imediatismo de uma tela. Vivemos tempos de afetos líquidos, onde tudo é feito para durar pouco. Ser uma pessoa que valoriza o eterno em uma era de descartáveis é, muitas vezes, sentir-se estrangeira. No entanto, aceito essa estranheza. Se nasci na época errada, que seja para ser guardiã de um tempo onde a alma e o cuidado tinham mais espaço para respirar.

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