Rascunho do Eu
| Poesia Lírica | 2026/3 Antologia Rascunho do Eu: enquanto me escrevo | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 05 de Março de 2026 ás 09h 58min
Rascunho do Eu
A folha branca espera
como o céu antes da chuva.
Eu sou o esboço hesitante,
a primeira linha torta
que tenta capturar
o contorno do que sou.
Um desenho a lápis, leve,
quase apagável.
Ainda não há sombras firmes,
nem a tinta densa da certeza.
Apenas a sugestão
de um ombro,
a curva insegura de um sorriso
que ainda não sei se será meu.
Aqui, no rascunho,
todos os eu possíveis
coexistem desordenados.
O eu que sonha alto,
feito pipa presa no vento,
e o eu pequeno,
escondido sob a mesa,
com medo do barulho.
As cores ainda estão na paleta,
não aplicadas.
A cor da raiva, um vermelho brusco,
ainda não tocou a pele.
O azul da melancolia,
espera o momento certo para escorrer.
Prefiro a grafite por enquanto,
o cinza da dúvida,
que permite a correção fácil.
Erros de perspectiva abundam.
A mão desenhada está grande demais
em comparação ao corpo pequeno.
A voz que imagino falar
soa estranha no silêncio do papel.
São protótipos de sentimentos,
bobo esboços de reação.
Olho para trás, para os rascunhos antigos,
e vejo a evolução lenta.
Aquele traço rente ao chão,
aquele medo agudo,
foi sendo preenchido,
mesmo que com pinceladas tímidas.
O papel guarda as cicatrizes da borracha,
as manchas de tinta que não deram certo,
mas que ensinaram o que evitar.
Este rascunho presente
é um ato de coragem simples:
colocar no mundo
a versão ainda inacabada.
Sem filtros, sem verniz.
Apenas a matéria-prima
do que serei amanhã,
quando a caneta definitiva
encontrar o lugar exato
para firmar a assinatura.
Por enquanto, aceito a fragilidade
deste eu provisório.
Um mapa incompleto,
um texto sem pontuação final.
A beleza reside no movimento,
na possibilidade de redesenhar
a cada novo amanhecer,
antes que o esboço vire obra,
e a mudança se torne história.
Este é o meu
campo aberto,
o rascunho do eu,
ainda esperando a luz certa para secar.