Raízes Profundas

| Prosa Poética | Rose Correia
Publicado em 13 de Setembro de 2026 ás 19h 26min

Sinopse:

Quando o vento leva aquilo que estava à vista, resta descobrir onde mora a força capaz de permanecer.

 

Raízes Profundas 

 

O vento soprou tão forte que folhas, pétalas e alguns galhos cederam e foram ao chão. Outras seguiram caminhos indefinidos, levadas para longe, sem saber onde haveriam de repousar. Apenas se entregaram ao rugir do vento, porque há momentos em que resistir já não é escolha, e deixar-se levar parece ser a única maneira de continuar.

 

O tronco se retorceu, contorceu-se, curvou-se... quase tocou o chão. Sentiu o peso das rajadas, ouviu o estalar dos próprios galhos e viu partir aquilo que um dia acreditara ser parte de sua permanência. Ainda assim, não se rendeu.

 

Porque nem tudo o que sustenta pode ser visto.

 

Sua firmeza não estava nas folhas que perdeu, nem nos galhos que o vento levou, tampouco nas flores que deixou cair. Estava enterrada onde nenhum vendaval alcançava: nas raízes profundas, silenciosas, que aprenderam a permanecer mesmo quando a superfície parecia desmoronar.

 

Agora, quase despida, permanece fincada em solo fértil. Há marcas em seu tronco, espaços vazios onde antes havia flores, silêncio onde antes havia o movimento das folhas... mas ainda há vida.

 

E ela sabe.

 

Sabe que nenhum vento permanece furioso para sempre. Que até a tempestade, cansada de sua própria fúria, um dia perde a força. Que depois do rugido vem o silêncio, depois da queda vem o recomeço, e que aquilo que parece fim pode ser apenas uma pausa entre duas estações.

 

Por isso, não corre atrás das folhas que partiram, nem lamenta os galhos que o vento levou. Não tenta recolher as flores que caíram, nem procura no chão aquilo que já cumpriu seu tempo de permanecer. Apenas permanece.

 

Porque sabe que perder folhas não é deixar de ser árvore, assim como perder flores não significa ter deixado de florescer.

 

Há coisas que precisam cair para que a vida encontre espaço para nascer novamente.

 

E, enquanto o mundo ainda carrega os vestígios da tempestade, ela permanece ali, silenciosa, com as raízes profundas e o coração voltado para o céu.

 

Enquanto isso, espera...

 

Não pelo vento que há de voltar,

mas pela calmaria que lhe permitirá florescer outra vez.

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