QUANDO O AMOR VIRA PAPEL
| Poesia Amorosa | 2026/06 Antologia Versos de raiz e chão | Edson BentoPublicado em 25 de Junho de 2026 ás 10h 49min
QUANDO O AMOR VIRA PAPEL
Alguns amores só existem quando a gente tem coragem de passar a limpo.
Tila era poetisa antes do luto. Depois que perdeu o grande amor da vida, fechou os cadernos e passou a viver entre silêncios. Hoje restaura livros antigos numa biblioteca de bairro, e a única poesia que ainda pratica é clandestina: escreve versos que nunca entrega, escondendo-os entre as páginas que conserta.
Lior é o carteiro novo da rua. Distraído, observador, acostumado a carregar palavras dos outros. Um dia, ao devolver um romance, encontra um bilhete perdido na contracapa. Três linhas. Sem assinatura.
Sem saber nomes ou rostos, os dois iniciam uma troca anônima. Ela deixa suspiros em papel de carta. Ele devolve respiros em haicais.
Porque tem amor que se não vira vida, vira só papel.
Quando o Amor Vira Papel
Bilhete 1 – Tila
Papel em branco
também é uma forma de grito
que ninguém escuta
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Bilhete 2 – Lior
Dobrei teu grito
no mesmo papel em branco
e te devolvi
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Bilhete 3 – Tila
Quero mais que fumaça
depois de apagar o incêndio
um amor aceso feito brasa
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Bilhete 4 - Lior
Se é brasa o que queres
deixo o vento na janela
e fico de guarda
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Bilhete 5 – Tila
Janela aberta
a brasa lambe o papel
se me guardas, entra
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Bilhete 6 – Lior
Bati três vezes
no portão, não na janela
espero o convite
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Bilhete 7 - Tila
Portão destrancado chave na fechadura
só falta tua mão
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Bilhete 8 – Lior
Girei a chave
o rangido disse entra
entrei sem papel
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Bilhete 9 - Tila
Porta sem trinco
teu nome no meu silêncio
finalmente corpo
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Bilhete 10 - Lior
Queimamos os versos
pra aquecer a madrugada
nosso nome é lenha