Quando eu te amava
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 09 de Maio de 2026 ás 13h 11min
Quando Eu Te Amava
Quando eu te amava, as minhas noites eram tecidas de luz,
havia lótus eternos em minha alma.
Cada estrela sussurrava o teu nome
e o universo inteiro cabia no teu olhar.
Mas agora que não te amo mais...
Tudo é sombra na vastidão do cosmo.
Quando eu te amava, o tempo se curvava,
dobrava-se em espirais de mel e âmbar.
As horas eram pétalas caindo devagar,
cada segundo um beijo suspenso no ar.
Eu caminhava descalça sobre nuvens de seda,
e o teu riso era a música que embalava o mundo.
Havia jardins secretos onde só nós existíamos,
onde as palavras nasciam já floridas,
onde o silêncio tinha gosto de eternidade.
As tuas mãos eram mapas de constelações,
e eu me perdia feliz em cada linha,
em cada marca que o destino havia gravado
para que eu pudesse encontrar-te.
Quando eu te amava, a lua era nossa cúmplice,
guardava os nossos segredos em suas crateras prateadas.
O mar cantava canções de ninar só para nós,
e as ondas traziam mensagens cifradas
que só os nossos corações sabiam decifrar.
Eu era templo e tu eras o sagrado,
eu era rio e tu eras o oceano,
eu era semente e tu eras a terra fértil
onde brotavam impossíveis primaveras.
Mas agora que não te amo mais,
as noites são apenas noites,
vazias como conchas abandonadas na praia.
A lua é só uma pedra fria girando no vazio,
e as estrelas são pontos distantes, indiferentes,
que nunca souberam o meu nome.
Os lótus murcharam em minha alma,
suas pétalas se desfizeram em cinza,
e onde havia jardins, agora há deserto.
O tempo voltou a ser linear, cruel,
uma flecha que atravessa sem piedade,
sem a doçura daqueles dias suspensos.
Agora caminho sobre pedras ásperas,
e os meus pés sangram com a verdade nua:
que o amor é uma ilusão que inventamos
para suportar a solidão cósmica,
para dar sentido ao caos,
para acreditar que não estamos sozinhos
nesta vastidão incompreensível.
As tuas mãos são apenas mãos,
carne e osso, nada mais.
O teu riso é um som que se perde no vento,
e o teu olhar não contém universos,
apenas o reflexo comum da luz.
E ainda assim, há uma estranha beleza nisso,
neste despertar da ilusão,
neste retorno à sombra.
Porque a sombra também é verdadeira,
talvez mais verdadeira que a luz inventada.
Há uma liberdade amarga em não te amar,
em reconhecer que os lótus eram miragens,
que a luz era apenas o brilho da minha própria esperança
refletida nos teus olhos.
Agora sou apenas eu,
sem templos, sem oceanos, sem primaveras impossíveis.
Apenas eu, pequena e frágil,
mas inteira na minha solidão,
completa na minha sombra.
E talvez seja isso o que precisamos aprender:
que podemos ser luz para nós mesmos,
que podemos tecer as nossas próprias noites luminosas,
que os lótus podem brotar de dentro,
sem precisar de outro jardim que não seja
o solo sagrado da nossa própria existência.
Quando eu te amava, eu me perdia.
Agora que não te amo mais, eu me encontro.
E na vastidão do cosmo, nesta sombra infinita,
há uma pequena luz que começa a pulsar:
a luz de quem aprende a amar-se a si mesma,
a luz de quem descobre que nunca esteve sozinha,
porque sempre teve a si própria,
sempre foi suficiente,
sempre foi inteira.
Tudo é sombra na vastidão do cosmo,
mas eu aprendo a dançar na escuridão,
a encontrar beleza no vazio,
a tecer a minha própria luz
com os fios da minha alma resiliente.
E quando a próxima primavera chegar,
se chegar,
será uma primavera verdadeira,
não construída sobre ilusões,
mas sobre a terra firme
de quem conhece tanto a luz quanto a sombra,
e escolhe viver mesmo assim,
escolhe florescer mesmo assim,
escolhe amar mesmo assim —
mas desta vez, começando por si mesma.