Quando a Paz Aprende o Caminho de Volta I

| | Jô Rodrigues
Publicado em 05 de Agosto de 2026 ás 17h 31min

Há dias em que a paz parece partir sem despedida.

Fecha a porta devagar,
leva consigo o riso despreocupado,
a leveza dos gestos,
e deixa sobre a mesa apenas o peso das perguntas
que ninguém consegue responder.

Nesses dias,
o coração aprende a falar baixinho,
como quem teme acordar antigas tempestades.
Até o silêncio ganha voz,
e a saudade veste a casa inteira
com cortinas feitas de lembranças.

Mas a paz não desaparece.

Ela apenas se esconde
nos lugares onde a pressa não costuma procurar.

Mora na lágrima que finalmente encontra o seu caminho.
Na mão que ampara sem pedir explicações.
Na palavra que escolhe curar
quando poderia ferir.
No perdão que nasce pequeno,
quase invisível,
como uma semente confiando na chuva.

Descobri que a paz nunca chega fazendo barulho.

Ela retorna descalça,
pisando devagar sobre os cacos
que a vida deixou espalhados.
Não apaga as cicatrizes.
Apenas ensina que elas também podem florescer.

É curioso...

Passei tanto tempo esperando que o mundo mudasse,
até perceber que a primeira fronteira
sempre foi dentro de mim.

Foi ali,
entre os medos que escondi
e as esperanças que quase abandonei,
que a paz começou a desenhar,
pacientemente,
o seu caminho de volta.

Ela veio sem promessas grandiosas.

Trouxe apenas a coragem de recomeçar,
o abraço que eu devia a mim mesmo,
a certeza de que nenhuma noite
possui autoridade suficiente
para impedir o nascimento da manhã.

Hoje compreendo
que a paz não é ausência de batalhas.

É a escolha de não permitir
que o ódio alugue morada na alma.
É continuar acreditando nas pessoas,
mesmo depois das decepções.
É plantar bondade
em terrenos onde muitos desistiram de semear.

Quando a paz aprende o caminho de volta,
ela não encontra a mesma pessoa que partiu.

Encontra alguém reconstruído,
mais humano,
mais sensível,
mais inteiro.

E talvez seja esse
o mais bonito dos milagres:

descobrir que, mesmo depois de tantas perdas,
a esperança ainda sabe o endereço da nossa porta
e a paz,
com sua infinita delicadeza,
jamais esquece o caminho para casa.

 

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