Quando a hora chegar
| Cartas Literárias | 2026/8 Antologia A quem ainda escrevo? | Manoel R. LeitePublicado em 31 de Agosto de 2026 ás 14h 03min
Sinop, 31 de agosto de 2026
Caríssimo,
Desejo sinceramente o seu melhor, hoje e sempre. Sei que a muito tempo não lhe escrevo, seria educado ou mesmo enganar-te que é por falta de tempo. Mas, bem sabes que é falta de compromisso, de priorizar as verdadeiras conquistas da vida como amizade, paciência, plenitude, uma boa conversa jogada fora e, tudo mais que em tempos tão modernos são considerados ultrapassados e obsoletos.
Durante essa imensa distância, repleta de lacunas de tempo, muito se passou, felizmente hoje sou menos Eu. Mas não o Eu essencial, este ainda encontra morada, não mais como um inquilino de sobreaviso, e, sim mora como proprietário, satisfeito e feliz no imóvel que habita e possui, mesmo pagando os devidos tributos que não são poucos.
O Eu ao qual me refiro constitui parte daquilo que parecia ser meu, e, nunca fora verdade. Como um leitor desavisado que faz um empréstimo na biblioteca, e esquece de devolver o livro porque nunca leu, e, quanto mais o tempo passa maior a multa e a vergonha em devolvê-lo. Assim, era o meu Eu parcialmente superado. Cheio de receios, medos e sonhos que não me pertencia.
Porém, mesmo não lhe escrevendo com o rigor que desejaria, sei que está bem. Vejo pistas de que tudo caminha como deveria caminhar, vidas conduzidas por destino e escolhas, regadas com sonhos próspero, apesar das vicissitudes da vida. E, almejo que continue assim.
Escrevo impulsionado pela revelação que de maneira transparente penetrou meus olhos, alcançando a minha alma. A revelação mais essencialista de quando a hora chegar novo horizontes se formarão, os ombros ficarão leves, e tudo que tanto preocupa hoje não terá mais sentido. Quando este momento chegar a liberdade tanto falada e tão pouco compreendida andará lado a lado com a sabedoria. Tal afirmação não é de lamento, de nostalgia, tristeza, nem muito menos despedida.
Afinal, despedimos de nós mesmos quando ignoramos todos os dias, quem verdadeiramente somos. Quando a hora chegar esteja preparado não para um trovão barulhento e assustador, E, sim para o simples das asas de uma borboleta que com o seu efeito de asas provocam mudanças no seu e em outros mundos. Muitos dos segredos serão revelados, no silêncio do entardecer, e, no pleno sorrisos nos olhos de quem lhe acompanha.
Também fora assim comigo, hoje sou mais Eu, isso não é um fardo, apenas fato de que deve-se sempre se preparar para quando a hora chegar.
Acredito na semente plantada apesar do solo arenoso, acredito na paciência apesar da ansiedade, acredito na vida mesma com tantas mortes. E, acredito em ti apesar do tempo, da distância e de tantas dúvidas humanas.
Com gratidão,
Eu.