Quando a Alma Escolhe Perguntar
| | 2026/07 Antologia Quando o verso pergunta | Jô RodriguesPublicado em 17 de Julho de 2026 ás 15h 17min
Há um lugar em mim
onde as respostas não florescem primeiro;
brotam perguntas,
como sementes que desconhecem a pressa
e, ainda assim, acreditam na primavera.
Quem somos
quando o aplauso se cala
e apenas a consciência conhece o nosso nome?
Qual estrada nos escolhe
antes mesmo de aprendermos
a chamar de destino os nossos passos?
Aprendi que a vida
não entrega certezas.
Ela oferece horizontes,
e pede coragem
para caminhar sem enxergar o fim.
Há dias em que o silêncio
não é ausência de voz,
mas uma biblioteca de verdades
que só o coração alfabetizado pela esperança
consegue ler.
E se a dor
não vier para ferir,
mas para revelar
o lugar exato
onde a alma ainda precisa nascer?
E se perder
for apenas a delicadeza de Deus
desfazendo mapas antigos
para que descubramos
o caminho que sempre morou dentro de nós?
Carrego perguntas
como quem leva água ao deserto,
porque descobri
que não é a resposta que salva o homem,
mas a sede que o mantém humano.
Quantas vezes
vestimos armaduras
quando o mundo esperava apenas
a simplicidade de um abraço?
Quantas guerras cabem
num coração que esqueceu
que a ternura também é uma forma de coragem?
Talvez a existência
não seja uma disputa entre luz e sombra,
mas uma conversa infinita
entre aquilo que somos
e aquilo que ainda ousamos ser.
Somos barro que pensa,
vento que recorda,
memória de estrelas
aprendendo a caminhar sobre a terra
sem deixar de olhar o céu.
Há poemas
que não cabem no papel.
Escolhem morar nos gestos,
na palavra que acolhe,
na mão estendida,
na esperança repartida.
Talvez escrever
seja apenas escutar
o que o universo sussurra
quando o ego finalmente se cala.
E talvez amar
seja responder, todos os dias,
à única pergunta
que atravessa todos os séculos:
O que fizeste da luz
que um dia colocaram em tuas mãos?
Se a resposta ainda não existe,
não temo.
Continuarei semeando versos,
porque há perguntas
que foram criadas
não para serem respondidas,
mas para nos transformar.
E, quando o último silêncio
fechar delicadamente os olhos do tempo,
espero descobrir
que viver nunca foi encontrar todas as respostas,
mas aprender a ser,
com humildade e inteireza,
a mais bonita pergunta
que a esperança já fez ao universo.