Proximidade com o passado
| Conto breve contemporâneo | Pequenas histórias para entender a vida | Manoel R. LeitePublicado em 21 de Abril de 2026 ás 05h 31min
Raul tomou a iniciativa:
_ Posso sentar?
_ Claro.
Ele se acomodou ao lado, sem excessiva proximidade. Entre os dois, restou um espaço pequeno, mas cheio de coisas antigas.
_ Você mora aqui? perguntou Helena.
_ Moro. Quer dizer, morei fora um tempo, depois voltei. E você?
_ Voltei faz dois anos. Minhas filhas cresceram, cada uma tomou seu rumo, e eu acabei regressando. Às vezes a gente demora para entender que alguns lugares não pedem heroísmo, pedem retorno.
Raul assentiu. Ela observou as mãos dele, inquietamente silenciosa, como se estas deveria segurar as palavras e o coração. E, em seguida perguntou.
_ Você trabalha ainda com o seu tio?
_ Não. Meu tio morreu faz muito tempo. Depois assumi o negócio por alguns anos, vendi quando o centro começou a mudar demais e abri uma assistência técnica de equipamentos agrícolas com um primo.
Raul demorou um pouco antes de perguntar:
_ Você recebeu minhas cartas?
Helena soltou um ar quase imperceptível. Sabia que, se o encontro chegasse a algum lugar verdadeiro, essa pergunta apareceria.
_ Recebi.
_ Pensei que talvez a última tivesse se perdido.
_ Não se perdeu.
_ Entendi.
_ Não, não entendeu.
Ele permaneceu quieto. Ela prosseguiu:
_ Eu li. Guardei. Adiei a resposta. Depois os dias foram ficando cheios de coisas novas e eu deixei a ausência fazer o serviço sujo por mim. Não foi esquecimento. Foi covardia sem má intenção. O que não melhora muito.
Raul recostou-se no banco.
_ Passei um tempo achando que tinha falado demais. Depois achei que tinha falado de menos. Mais tarde concluí que talvez você só tivesse seguido sua vida.
_ Segui.
_ Eu também.
_ Eu sei.
_ Como sabe?
_ Porque é isso que quase todo mundo faz. Não é?
Ele sorriu, mas havia uma sombra leve no sorriso.
Do guichê central veio o anúncio de outro atraso. Algumas pessoas reclamaram. Um menino chorou pedindo salgado. Um homem atravessou o saguão arrastando mala. E, no meio daquele movimento tão comum, os dois pareciam sentados à margem de uma outra corrente.
Raul falou primeiro:
_ Lembro do envelope.
Helena sentiu o velho constrangimento de quem recorda algo quase delicado demais para ter sobrevivido.
_ Eu também.
_ Abriu no ônibus ou esperou chegar?
_ Esperei chegar.
_ Então pelo menos essa parte você cumpriu.
_ Cumpri.
_ E o que achou?_
Ela demorou. Ainda podia ver, mesmo tantos anos depois, o conteúdo do envelope: uma folha dobrada com a letra inclinada de Raul e uma fotografia pequena tirada na praça, num domingo qualquer, em que os dois apareciam quase sem pose, capturados entre conversa e riso. Na carta, ele não declarava amor de forma direta. Fazia algo mais perigoso. Dizia que a cidade perderia uma espécie de eixo com a partida dela e que, se um dia ela cansasse do mundo grande, encontraria nele alguém disposto a ouvir não apenas suas conquistas, mas também seus fracassos. Na época, Helena achou aquilo bonito demais e sério demais. Temeu que responder à altura a prendesse a um destino que ainda não desejava assumir.
_ Eu achei - disse enfim - que você tinha escrito uma coisa maior do que a minha idade sabia receber.
Ele abaixou os olhos, como se a frase encostasse num ponto antigo.
_ Naquela idade, eu confundia liberdade com deixar tudo em aberto.
_ E hoje?
_ Hoje sei que deixar tudo em aberto também é uma escolha. E às vezes das mais duras.
Passaram alguns segundos olhando o movimento da rodoviária, como se ambos precisassem que o mundo comum seguisse ao redor para suportar o peso discreto daquela conversa.
_ Você ainda guarda minhas cartas? - ele perguntou.
Helena sorriu, agora sem defesa.
_ Guardo.
Raul virou o rosto para ela com surpresa honesta.
_ Mesmo sem responder?
_ Talvez justamente por isso.
_ Isso é um castigo ou uma homenagem?
_ Nem um nem outro. É uma margem.
_ Margem?
_ Sim. Certas lembranças não ocupam o centro da vida. Nem devem. Mas também não desaparecem. Ficam nas bordas. A gente segue, trabalha, ama, perde, envelhece, paga conta, compra remédio, resolve coisas pequenas e, de repente, numa tarde qualquer, encosta nelas de novo. Estão lá. Quietas. Sem exigir nada. Só existindo.
Raul pareceu guardar a imagem.
_ As margens da lembrança.
Helena repetiu baixinho:
_ As margens da lembrança.
_ Durante uns dois anos, sempre que eu vinha à rodoviária buscar encomenda ou levar alguém, olhava em volta imaginando que você pudesse aparecer sem aviso. Helena sentiu um aperto manso no peito.
_ Raul.
_ Não é cobrança. Já passou.
_ Eu sei. Mesmo assim.
_ Depois parou. A vida exige espaço. Meu pai adoeceu mais, o trabalho apertou, o casamento veio, os filhos chegaram.
_ Você tem filhos?
_ Dois. Um mora em Cuiabá, outro em Lucas. Vejo quando dá.
_ Então também sabe o que é ficar esperando mensagem.
_ Sei. E fingir naturalidade quando chega só um ok.
Ela riu com tristeza familiar.
_ Minhas filhas são amorosas. Mas amor adulto vem ocupado.
_ Vem mesmo.