Prosa poética setigonal Nostalgia de uma velha casa à beira-mar

| Prosa Poética | Jaque Monteiro
Publicado em 08 de Fevereiro de 2025 ás 08h 55min

Estou de retorno. Ainda vejo, com repúdio, as mesmas manchas na pintura, já gasta, com as quais amiúde me desabafei.

 

Recebe-me à porta, a nostalgia de uma vetusta casa à beira-mar, onde as indigestas memórias nubladas de maresia provocam-me azia e ânsia.

 

Elas batem feito ressaca do mar, num vaivém no vão da boca salobra; travo os dentes.

 

Como outrora, mudas testemunhas, os móveis, entreolham-se imóveis. Hodiernamente carcomidos, espantam-se com os vincos erodidos pelas constantes monções silenciosas dos meus idosos-olhos-criança.

 

— Poderia ter sido diferente! — gorfo meu sussurro ácido, palavras de tardia esperança natimorta.

 

Encaro os rochedos pela janela gradeada da alcova, eles ainda flertam comigo, eu ainda flerto com o medo.

 

Espreitam-me de volta, as velhas paredes desbotadas do casarão, que nunca me disse nada.


 

 

*** Observação: este texto surgiu a partir de uma tentativa de setigonar diferente, acabou virando uma prosa poética setigonal, estilo que pretendo explorar mais.

Livro: SETÍGONO - o brasileirinho ousado - ENSAIO: teoria, prática e poesia

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