Projeto de Vida
| Crônica | 2026/05 Antologia Dias escritos em prosa | Gilmair Ribeiro da SilvaPublicado em 05 de Maio de 2026 ás 14h 34min
O professor Enésio balançou a cabeça, contrariado, mas não surpreso, pois ele próprio sabia que, em véspera de feriado prolongado na escola pública, é assim mesmo: ausências previsíveis, justificativas improváveis. Restavam apenas oito alunos no terceiro ano de Humanas, naquela sexta-feira anterior ao dia de Tiradentes.
Mas ela estava ali...
A menina tímida, de sorriso contido, tinha motivos suficientes para faltar, como quase todas as companheiras de turma; mas, nas circunstâncias em que vivia, estar na escola era menos difícil do que estar em qualquer outro lugar.
Ela era ressabiada, não confiava em ninguém e evitava os professores, não apenas por timidez, mas pela memória de que muitos já haviam se aproximado com promessas de ajuda e intenções tortas. Enésio, até então sem conhecer sua história, percebeu o limite, e o respeitou.
Ao cair da noite, os ventiladores ressoavam, e a aula de literatura se desenvolvia com a intensidade daqueles que manifestam sua paixão nas palavras e nos gestos. Movido pela expressividade que lhe era peculiar, em determinado momento, o professor falava:
— Improviso é bom no futebol e na poesia. Mas a vida, às vezes, exige clareza e precisão, para que cada papel que exercemos na esfera pública remeta a uma linguagem. Por isso mesmo estudamos a norma culta da língua.
Ela ouvia...
Achava bonito e meio engraçado.
Mas pensava: sua vida sempre fora improviso...
“Papel social?; repetiu em silêncio...O que será que ele quer dizer com isso?”
Ainda assim, gostava dele... Ao observá-lo: austero e de jaleco, como quem encarnava a própria liturgia do cargo, lembrou-se de Brás Cubas, personagem estudado na aula anterior, e se identificou:
“O sujeito fracassou em tudo, e ainda assim ria e até agradeceu ao verme que o devorou.” “Melhor que cortar o pulso, né...”
Aquilo fazia sentido: “O Brás é parça, tenho muito a aprender com ele”. Pensou...
Depois da explanação rápida, houve um momento para fazer os exercícios do caderno do aluno.
E a sala vazia deixava as vozes mais nítidas...
— Tô com fome, disse ela ao Caio: Só comi pipoca pra conseguir vir.
— Sua mãe não fez comida?
Ela respondeu, sem drama:
— Não moro com ela. E meu pai… nem sei quem é. Minha mãe entrou pro tráfico, foi embora, e agora quando me vê na rua, finge que não me conhece. Moro com meu irmão, mas a mulher dele não gosta de mim.
— E sua avó?
— Ela também finge que não me vê. Seria bom ter uma avó.
O professor ouviu...
Sem dizer nada, desceu à cozinha, e logo voltou com parte do seu lanche e uma garrafa pequena de refrigerante. Chamou-a no corredor.
Ela hesitou; mas aceitou...
Viu, no rosto dele, algo raro: retidão...
— Não precisava, professor… obrigada.
Os olhos dela, marejados, disseram o resto.
Dias depois, aproveitando a confiança adquirida, ele perguntou:
— Qual é o seu projeto de vida?
Ela pensou,,,
Depois respondeu:
— Abrir a janela de manhã, ver o sol nascer, respirar ar puro, e ver gente andando na rua… Isso já é uma Vitória, professor!
Depois contou o resto:
A mãe estava presa; o pai ausente; a avó que a rejeitava; e casa onde não cabia.
De repente, abriu o coração; e, entre outros assuntos, disse que, no fim do ano, não pretendia ir à cerimônia de formatura.
— Não quer uma foto de beca para a posteridade? — ele perguntou.
Ela respondeu que havia outras memórias possíveis...
Ele pensou em dinheiro. Sempre o maldito dinheiro....
O ano acabou.
O professor tentou, mentalmente, abrir um túmulo bem fundo no túnel da memória, e enterrar esse fantasma que o atormentava.
Mas, passados quatro anos, toda vez que entrava na sala de aula, a voz do vento, balançando os ipês e os pinheiros, parecia atravessar as cortinas e invadir a sala como uma melodia em tom de gemido inexprimível:
“Abrir a janela, respirar o ar puro e ver as pessoas caminhando pela calçada já é uma Vitória.”
“Primeiro a liberdade, depois a independência.”
“Meu projeto de vida? Depende: primeiro fazer dezoito anos; depois, um emprego para morar sozinha… Quem sabe, depois, faculdade de enfermagem ou farmácia; ou talvez um curso técnico de logística…” ou, de repente… “alguém que me banque…”
O certo é que do outro lado da cidade, uma janela se fechou para a rua...
E, desde então, ninguém soube dizer ao certo o que aconteceu com a menina tímida do sorriso contido...
Alguns afirmariam tê-la visto atravessando a madrugada, levada por um vento sorrateiro que não fazia ruído. Outros diriam que ela apenas seguiu seu destino; como quem aprende cedo demais a desaparecer...para quem sabe, retornar: numa notícia impactante ou numa estatística...
O fato é que, às vezes, quando o dia ainda hesita em nascer, há quem diga que uma janela se abre sozinha, por um instante, e deixa entrar um sopro leve, quase um gesto, como se alguém ainda insistisse em respirar o mundo.
Mas isso ninguém confirma. Nem o professor....
Vitória.
(Gilmair Ribeiro da Silva – Piracicaba – SP)
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Gilmair nos brinda com uma peça de reflexão profunda e de elevado alcance social, com o viés introspectivo e motivacional. O propósito é humanizar o planejamento de vida, tratando como um ato de amor próprio e cuidados com o futuro!