Por essa luz que me alomeia
| Lenda | Manoel R. LeitePublicado em 03 de Setembro de 2026 ás 15h 11min
Cuiabá, nos anos de oitenta, parecia conversar mais baixo depois das seis. Calor não arredava pé, mas sol se escondia atrás dos telhados e deixava no céu uma vermelhidão de brasa soprada. Pelas bandas do Porto, cadeira saía para calçada, rádio chiava rasqueado, menino corria descalço e cachorro sabia nome de cada vizinho.
Na casa de dona Nhá Totó, conversa começava depois da janta. Pacu assado, farofa de banana, arroz e pimenta que fazia sujeito suar até pensamento. Quem chegasse tarde ainda encontrava de jápa um pedaço de bolo de arroz.
— Come mais, xômano.
— Tô até na orêia, dona Totó.
— O quá! Home magro desse tamanho não enche nem vasilha de doce.
Seu Juca Pescador refestelava. Tinha fama de mentiroso, embora jurasse nunca ter acrescentado nem escama aos causos.
— Por essa luz que me alomeia, tudo que conto aconteceu.
— Agora quando! - retrucava Nhá Totó. — Esse aí mente até dormindo.
Naquela noite, Seu Juca chegou ressabiado. Não quis café, não quis conversa, não quis nem futxicaiada sobre filha de comadre Mundica, que garrara namoro com um pau-rodado vindo de São Paulo.
— Tchá por Deus, Juca. Que qué esse? Tá jururu por quê?
Ele demorou. Cuspiu para lado, coçou bigode.
— Vi rebojo lá no Pari.
Silêncio caiu no quintal.
Até criançada, que sapeava conversa atrás da porta, esqueceu respiração.
— Vôte! - soltou dona Totó.
Seu Juca jurou que rio primeiro ficou liso. Liso de dar medo. Depois água rodou sem vento, canoa tremeu, ceva desapareceu e alguma coisa comprida passou por baixo do casco.
— Minhocão.
Nhá Totó fez sinal da cruz.
— Larga de moage, Juca.
— Moage mea orêa! Quase fui pá terra dentro d’água.
Ninguém acreditava inteiro. Ninguém duvidava inteiro. Cuiabá sempre soube deixar uma fresta entre mundo visto e mundo contado.
Seu Totico, cururueiro, aproveitou medo para buscar viola de cocho. Sentou perto do pé de manga, afinou cordas e disse que assombração não gosta de cantoria.
— Negatófi - discordou Nhá Totó. — Assombração cuiabana gosta é de gente pongó andando de noite.
Lembrou Procissão das Almas, vista por sua mãe perto do cemitério. Depois Mulher Seca. Depois porca com sete leitões descendo ladeira em noite sem lua. Cada lembrança puxava outra. Causo, quando nasce em Cuiabá, não caminha sozinho: leva compadre, vizinho, defunto, santo e testemunha.
Lá fora, cidade mudava depressa. Chegavam prédios, asfalto, televisão colorida, gente de todo canto. Pau-rodado abria comércio, comprava terreno, aprendia que calor de Cuiabá não se enfrenta: respeita-se. Meninos começavam a preferir som elétrico ao ganzá. Mesmo assim, quando viola chorava no quintal, modernidade malemá conseguia atravessar portão.
Seu Totico puxou cururu.
Dona Totó acompanhou batendo mão na coxa.
Criançada saiu do esconderijo.
Seu Juca voltou a ser valente.
Até professor Valdemar, paulista de nariz furado que dizia não acreditar em lenda, chegou mais perto da roda.
— E o Minhocão, Juca?
Pescador olhou para escuridão na direção do rio.
— Tá lá.
— Você viu mesmo?
Seu Juca sorriu.
— Se eu vi, não carece contar. Se não vi, conto do mesmo jeito.
Todo mundo riu.
Naquela Cuiabá, verdade não precisava andar sozinha. Memória fazia companhia. Palavra completava o que olho não alcançava.
Anos depois, muitos daqueles quintais sumiram. Algumas vozes também.
Mas, vez ou outra, noite quente encosta na janela, alguma viola reaparece dentro da lembrança e Cuiabá pergunta baixinho:
— Agora, que qué esse, xômano? Pensou que eu tinha ido embora?