Poesia de vagalume

| Conto | 2025 - Antologia Emanuele de Fátima Flor e Convidados - Versos que Encantam | Manoel R. Leite
Publicado em 09 de Março de 2026 ás 14h 40min

A tarde escorria mansamente sobre o quintal. Mangueiras faziam sombras compridas, e o cheiro doce das folhas esmagadas misturava-se ao perfume simples de grama. No fundo do quintal uma cerca baixa de madeira e, além dela, um campo onde o sol parecia pousar antes de desaparecer.

Lia estava acomodada no degrau da varanda. Mais acomodado ainda encontrava o seu lápis, sobre um caderno que naquele momento não escrevia, não desenhava apenas existia. Ela olhava o tempo naquela terra, cada coisa ali escondia silenciosamente, silenciando o coração e desabrochando a alma.

Seu pai saiu da cozinha segurando uma xícara de café. Aproximou levemente, apreciando o café e a cena, cafés ficam mais saborosos quando consumido com alma e presença. Ficou algum tempo em silêncio, olhando o mesmo horizonte que ela olhava. Depois disse com voz mansa:

_ Engraçado… sempre que vejo alguém com um caderno aberto e o lápis parado desse jeito, fico pensando que alguma coisa muito importante está tentando nascer aí dentro. Parece quando a terra silencia-se antes da primeira chuva. Como que esperando a água cair para poder soltar o cheiro que guardou o dia inteiro. O que anda acontecendo nesse caderno, Lia? É falta de palavras ou é excesso delas?

Ela então suspirou devagar, sem tirar os olhos do quintal.

— Acho que é um pouco dos dois. Olho as coisas aqui fora e parece que elas querem virar verso, mas quando eu tento escrever as palavras não ficam do jeito que eu senti. O pensamento é maior que a frase. Aí eu paro e fico esperando, porque talvez o verso precise de tempo para encontrar o caminho.

O pai bebe o último gole do café apreciando o sabor em sua memória, permitindo que a sensação perdure naquele breve momento de eternidade.

_ Isso acontece com muita gente que tenta escutar o mundo com atenção - disse ele, olhando para o céu que começava a mudar de cor. Prosseguindo

_ Quando menino, lá na roça onde cresci, minha mãe dizia que certas coisas não gostam de pressa: pão crescendo na massa, estrela aparecendo no céu e palavra boa querendo virar poesia. Todas elas precisam de silêncio ao redor.

Lia com seu olhar vívido e transparente virou o rosto para ele.

_ O senhor acha mesmo que as palavras precisam de silêncio?

_ Acho que precisam de alguém que saiba escutar antes de falar -com sorriso leve prosseguiu. - Olha ali no quintal as formigas andando perto da roseira, a sombra da mangueira crescendo devagar, o vento passando por entre as folhas como quem sussurra uma história, quase um segredo. Tudo isso está acontecendo sem fazer barulho. Talvez a poesia seja justamente isso: a arte de ouvir aquilo que o mundo diz bem baixinho.

_ Às vezes eu tenho a impressão de que as coisas querem conversar - disse ela - mas a gente quase nunca percebe porque está ocupado demais olhando para outras coisas maiores. Hoje mesmo eu estava vendo aquela folha cair da mangueira… ela veio rodopiando tão devagar que parecia uma dança. E na hora pensei que talvez ali já estivesse um verso.

_ Pois é… muita gente passa a vida esperando grandes acontecimentos para sentir beleza, quando na verdade ela mora escondida nas pequenas distrações do mundo. Tudo são portas pequenas que levam para lugares muito grandes dentro da gente.

O silêncio voltou por alguns instantes. Naquele instante a luz do dia começava a se despedir.

Foi então que um pequeno ponto luminoso apareceu perto da cerca.

Piscou.

Apagou.

Piscou novamente.

Lia levantou um pouco o corpo no degrau.

_ Papai… o senhor viu aquilo ali?

Ele inclinou a cabeça para frente, tentando enxergar melhor. Rastreou a luz como quem rastreia estradas.

— Vi sim. Sempre acho bonito quando o primeiro vagalume aparece na noite. Parece que alguém acendeu uma lanterninha no escuro só para avisar que o dia terminou.

A poeta menina observava o pequeno brilho que subia e descia no ar.

_ Engraçado… quando ele acendeu agorinha eu senti a mesma coisa que sinto quando uma palavra aparece de repente quando estou escrevendo. É como se uma luz pequena iluminasse o pensamento inteiro.

A conversa fluía como rio que não tem pressa, e, permite ser tocado pelas pedras e raízes no caminho.

— Talvez seja por isso que tanta gente compara poesia com luz. Porque às vezes basta um ponto de claridade para a gente enxergar coisas que estavam escondidas no escuro.

Lia pegou o lápis novamente. Ficou alguns segundos olhando o vagalume que piscava perto da roseira. Depois começou a escrever.

O pai ficou apenas observando tudo devagar, fluindo vividamente no doce silêncio da maturação de ideias e de pessoas.

Alguns minutos depois, ela terminou de escrever. Dobrou a folha com cuidado e olhou para ele.

_ Posso ler?

_ Claro que pode. Palavra que nasce assim merece ser escutada.

Abriu o papel e leu com voz tranquila:

“Quando a tarde lentamente se despede do quintal,

um vagalume acende a primeira estrela da noite.

E quem aprende a olhar com calma

descobre que os versos moram nas pequenas coisas.

Inclusive na luz intermitente de um vagalume

Que sonha alto carregando em si o brilho eterno das estrelas.”

Ele saboreava aqueles versos, como café saboreado em bela companhia. Apreciou um pouco mais pequeno brilho que dançava perto da cerca, e finalmente falou.

_ Sabe de uma coisa, Lia? Acho que esse vagalume nos lembra de que o mundo vive cheio de poesia… mas ela só se revela para quem tem paciência de parar, olhar e deixar o coração escutar primeiro.

Lia fechou o caderno. A noite já estava quase inteira sobre o quintal.

E o vagalume continuava acendendo pequenas luzes, como se estivesse escrevendo versos invisíveis no ar.

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