PÓ DE ARROZ E PATUÁ
Começo esta conversa,
que fique bem lembrado:
vê se não atravessa
na frente do passado.
Como é bom à beça
um cafezinho coado.
Coado na peneira
pra quem fala atravessado
e cospe a vida inteira.
Pesava aquele embrolho,
mas eu nunca corri:
de saci pelado não temi.
Era um pequeno pimpolho,
que nunca se calava.
Podiam me olhar torto,
mas ninguém me mirasse o olho,
que em mim não pegava
nenhum mau-olhado.
Tinha um patuá no bolso
e a rua toda ao meu lado.
Então chegou o Saci,
o Pererê perfeito,
pulando de perna só,
sujeito levado.
Caía no terreiro,
dava dó, coitado,
mas tudo é questão
de se ter um jeito.
Pular corda com nó,
é certo o tropeço.
Não era ponto, não,
era laço malfeito.
Mas ele não deixava
nada pra depois:
tirava a tinta da cara,
passava pó de arroz.
Levava a vida na farra,
negrinho cheio de fita,
paletó de doutor,
pinta de enganador.
Cigarro no dedo,
gravata e fulô.
Falava de lei e regra,
de como tem que ser.
Mas malandro que é malandro
não ensina, deixa ver.
Cara de bobão, não,
não era o seu feitio.
Tinha sempre um jargão:
"Vai com calma, tio!
Aqui ninguém é bobo,
se for pra dar mancada,
vai de perna só,
mas vai de coração."
O laço malfeito ele desatava,
o abraço sincero apertava.
Tirava a máscara com garra,
botava a cara no sol.
Dizia que pó de arroz
não tampa um anzol.
Quem tem a alma atroz
só esconde a marra.
E assim termina a história
desse saci que não erra.
Com patuá, café e fita,
ele venceu a guerra.