PÓ DE ARROZ E PATUÁ

Cordel | Lenda | Edson Bento
Publicado em 01 de Setembro de 2026 ás 17h 38min

PÓ DE ARROZ E PATUÁ

 

Começo esta conversa,

que fique bem lembrado:

vê se não atravessa

na frente do passado.

Como é bom à beça

um cafezinho coado.

Coado na peneira

pra quem fala atravessado

e cospe a vida inteira.

 

Pesava aquele embrolho,

mas eu nunca corri:

de saci pelado não temi.

Era um pequeno pimpolho,

que nunca se calava.

Podiam me olhar torto,

mas ninguém me mirasse o olho,

que em mim não pegava

nenhum mau-olhado.

Tinha um patuá no bolso

e a rua toda ao meu lado.

 

Então chegou o Saci,

o Pererê perfeito,

pulando de perna só,

sujeito levado.

Caía no terreiro,

dava dó, coitado,

mas tudo é questão

de se ter um jeito.

Pular corda com nó,

é certo o tropeço.

Não era ponto, não,

era laço malfeito.

Mas ele não deixava

nada pra depois:

tirava a tinta da cara,

passava pó de arroz.

 

Levava a vida na farra,

negrinho cheio de fita,

paletó de doutor,

pinta de enganador.

Cigarro no dedo,

gravata e fulô.

Falava de lei e regra,

de como tem que ser.

Mas malandro que é malandro

não ensina, deixa ver.

 

Cara de bobão, não,

não era o seu feitio.

Tinha sempre um jargão:

"Vai com calma, tio!

Aqui ninguém é bobo,

se for pra dar mancada,

vai de perna só,

mas vai de coração."

 

O laço malfeito ele desatava,

o abraço sincero apertava.

Tirava a máscara com garra,

botava a cara no sol.

Dizia que pó de arroz

não tampa um anzol.

Quem tem a alma atroz

só esconde a marra.

E assim termina a história

desse saci que não erra.

Com patuá, café e fita,

ele venceu a guerra.

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