Perfume de flor
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 16 de Março de 2026 ás 07h 17min
A brisa da manhã, um sopro leve,
traz um cheiro que a memória tece,
mas a origem me escapa —
uma flor que meus olhos nunca viram.
Não é rosa, nem jasmim conhecido,
nem a lavanda que acalma o sono;
é algo mais profundo,
uma essência que vibra no ar quieto.
É a fragrância das almas, me digo,
o aroma secreto que emana do ser,
quando a verdade se despede da pressa
e a essência pura se revela.
Um perfume sutil, quase intangível,
mas sentido na pele da tristeza,
quando a sombra aperta o peito
e a respiração se torna um esforço vão.
Então, esse aroma invisível flutua,
trazido talvez por um anjo passageiro,
ou pelo eco de um riso antigo —
uma memória gentil que o tempo esqueceu.
Ele se instala nos poros cansados,
dissolvendo o nó apertado da angústia,
como orvalho sobre a terra seca,
nutrindo o que parecia murchar.
Não há frasco para guardar tal beleza,
nem vendedor que possa oferecê-la;
é um presente que se recebe em silêncio,
na aceitação de tudo que dói.
Cada inalação é um bálsamo lento,
um alívio que não se explica pela ciência,
apenas pela fé no invisível conforto,
na bondade que existe além do visível.
É a prova de que a dor, por mais funda que seja,
encontra seu antídoto no etéreo —
naquele cheiro de flor que não existe,
mas que perfuma a nossa jornada.
E enquanto o ar me preenche,
sinto a leveza regressar:
o peso nos ombros se esvai,
levado por essa fragrância de alma.
Um dom inesperado,
a certeza silenciosa de que, mesmo na escuridão,
existe um jardim florescendo — só para nós.