Pamonha, goiaba e aventura!
| Crônica | 2025 - Antologia Romeu Donatti e Convidados - Sabores, afetos e Poesia | Rosalina Ananias Pinheiro NevesPublicado em 01 de Outubro de 2026 ás 11h 40min
Pamonha, goiaba e aventura!
João era, dentre os meus sete irmãos que conheci, o segundo mais velho. Sendo eu a caçula de doze, os outros cinco primeiros e também meu pai, já não estavam mais entre nós. Ele era um homem muito prestativo. Sua casa vivia cheia de amigos e onde chegava tinha a atenção de todos, pois era alegre e brincalhão também. Sua esposa Anésia e seu filho Donizete o amava, pois além das qualidades já descritas, era também um bom pai e excelente esposo, dona Anésia era quem dizia!
Naquela manhã de domingo, dia cinco de janeiro, a família reuniu em sua casa para fazer pamonhas, era o prato preferido da época! Família grande, só de meninos e meninas éramos em oito pessoas, pensa num povo barulhento!
O dia começou com aquela garoa fina, parecia que os planos da “pamonhada” não iam dar certo, mas logo o sol se mostrou imponente, convidando-nos a viver mais um dia de aventura! Em pouco tempo o cavalo já estava sendo preparado para ser atrelado à carroça e buscar o milho no milharal. A meninada em polvorosa não via a hora de sair para fazer aquela divertida viagem, pena que a roça nem era tão longe, pois se dependesse da coragem da galera que ali estava, poderia ser até mais distante, para que a emoção da viagem não acabasse tão logo.
Carroça a postos! A meninada começou a subir, cada um escolhendo seu cantinho para garantir que não ficaria para trás e eu consegui estar no meio deles, feliz da vida, pois esse tipo de diversão acontecia poucas vezes ao ano. Mesmo assim, apenas os maiores conseguiram participar da façanha, os quatro menores, por imposição das mães tiveram que ficar em casa.
O trotar do cavalo causava muita algazarra entre nós, eram conversas, risos e gemidos para assemelhar as vozes ao barulho de um carro. Não demorou nada avistamos o milharal! Aquilo parecia uma mata robusta de tão verde que estava. Com suas espigas graúdas a sensação era de que a natureza havia caprichado um pouco mais para que, naquele dia, nossa alegria fosse completa. Começamos a colher as espigas junto com meu irmão. Ele nos orientava que escolhêssemos as maiores para que as palhas fossem suficientes para receber o milho ralado e adoçado que daria origem as pamonhas. E assim fizemos, não demorou muito havia dois sacos cheios de espigas. O difícil foi suportar a piniqueira nos braços depois, mas logo passou! A emoção da viagem de volta foi o antídoto para aquele mal.
A demanda seguinte foi descascar e ralar todo aquele milho, mas essa foi uma tarefa somente para os adultos que ali estavam, três irmãos, duas irmãs e minha cunhada que também se esbaldavam de alegria pelo fato de estarem reunidos, de longe se ouvia as vozes e as gargalhadas que embalavam aquela deliciosa tarefa.
Enquanto as pamonhas estavam sendo feitas, as crianças foram explorar o quintal onde havia muitos pés de goiabeiras. Escalávamos as árvores em busca de goiabas maduras e encontramos muitas. Graúdas, pequenas, brancas e vermelhas, um sabor inigualável, tinha gosto de infância!
De repente começamos a sentir um cheiro que perfumava o espaço. Aquele era o cheiro que estava sendo aguardado por todos naquele dia. Continuamos nossa colheita de goiabas, pois sabíamos que ainda era cedo para degustarmos as pamonhas.
Enquanto isso, dona Rosa, a matriarca da família fazia o almoço. Para aquele dia o cardápio era frango caipira, quiabo, angú feito com milho verde ralado e coado e o tradicional arroz com feijão, concorrência desleal com tanta pamonha sendo preparada. Mas acontece que com tanta atividade, é lógico que daria para provar todos os sabores que foram preparados com tanto esmero por todos.
Enquanto a pamonha cozinhava, exalando aquele cheiro delicioso fomos almoçar. As crianças se organizavam sentando no chão, na soleira da porta, no banquinho de madeira do menino da casa e até no rabo do fogão a lenha. Agora a disputa era outra, sabe aquele ossinho em forma de “V” que fica no peito do frango? Então, usávamos para fazer apostas. Meu sobrinho Donizete foi o sortudo da vez, encontrou-o. Para conseguirmos “jogar” com êxito era necessário estar bem sequinho e isso conseguíamos deixando-o algum tempo em cima da trempe do fogão a lenha. Terminado o almoço foi o momento esperado para disputa usando o osso, o qual chamávamos de “jogo”. O adversário foi convidado a segurar em uma das hastes do osso. Os dois jogadores puxavam, cada um para o seu lado. Geralmente era apostado algo simples e dessa vez o prêmio era uma goiaba vermelha, grande e bonita, que Donizete encontrou a pouco no quintal. Israel foi o adversário, um dos primos que ali estavam. Ganhou de primeira e o troféu foi exibido em meio a uma grande comemoração, alegria para um e tristeza para o outro. Mas isso logo passou, pois o que importava mesmo era que logo, logo estaríamos desfrutando do sabor da rainha da festa, a pamonha!
E o momento chegou! E o cheiro invadiu o ambiente despertando uma euforia deliciosa. Cada pamonha tinha um pedaço generoso de queijo derretendo. O sabor era sem igual, penso que os deuses sentiram inveja de nós, pois pelo que conhecemos eles são espíritos e não poderiam desfrutar daquelas delícias que consumíamos no momento. Estava fenomenal! Os mais comilões, de vez em quando faziam uma cara feia e avermelhavam a face, era o pedaço quente que descia queimando tudo. Paciência para esperar a esfriar nem pensar, era urgente a degustação naquela hora.
Depois do banquete vem mais conversas, mais risadas, mais correria de crianças que disputavam quem chegaria primeiro, quem encontraria a primeira goiaba, quem subiria mais alto.
Há lembranças que o tempo não apaga! Apesar da pouca idade, nove anos apenas, trago vivo na lembrança cada detalhe. O cheiro, o sabor, a alegria daquele momento em companhia dos irmãos, sobrinhos e primos, permanecem inalterados na memória, apesar do tempo.
Porém, como tudo é passageiro, o dia estava chegando ao fim, era um momento do qual nunca gostei muito, a despedida. Minha irmã Elza morava na vila Cruzeiro D’Oeste, distante cinco quilômetro do sitio onde morávamos. O bom é que para ela e meus sobrinhos, que eram quatro, a aventura acabariam só mais tarde, pois João, meu irmão e dono da casa onde estávamos, levaria eles para casa, de carroça.
O sol já estava se pondo, o cansaço acalmava a meninada que seguia exausta de um dia inteiro de risos, gritos e, às vezes, até choro, pois nem sempre o cálculo do passo funcionava e aconteciam os tombos, trombadas, topadas de dedos em raízes ou algum obstáculo no meio do “caminho”.
A noite chegou! O cansaço das muitas atividades traz um sono cheio de sonhos, pois as lembranças daquele dia ficaram gravadas para sempre. O saldo foi de um dia intenso e maravilhoso com sabor de pamonha, goiaba e aventura!