Paixões
Crônicas | 2025 - Isolti Cossetin e Convidados - Apaixonados pela Vida | Manoel R. LeitePublicado em 12 de Janeiro de 2026 ás 08h 45min
Paixões não avisam. Elas não chegam com flores nem com discursos; chegam como poeira fina, dessas que entram pela fresta da janela e, quando se nota, já cobriram os móveis.
Naquela manhã, tudo parecia absolutamente normal. O relógio marcou o mesmo horário de sempre, o chão continuava frio sob os pés descalços, o café exalava o mesmo cheiro antigo. Ainda assim, havia algo diferente, não no cenário, mas no modo como o cenário insistia em existir.
Ele girou a colher dentro da xícara e pensou, sem nada elaborado muito menos profundo e existencial. Visualizou o café em um pequeno redemoinho acompanhando o efeito Coriolis antes de parar. Nada realmente importante, apenas um fato, um acontecimento. Saiu de casa com velocidade e energia, mas sem urgência. A rua cheia de ruídos: um caminhão distante, uma conversa atravessada, um portão batendo. Sons que sempre estiveram ali. Nenhuma emoção explícita, apenas presença. A sensação de que o mundo não era pano de fundo, mas matéria viva. Próximo a padaria, o cheiro do pão escapava pela porta entreaberta. Ele não entrou. Não precisava. O cheiro já cumpria sua função: anunciar a sua existência convidando a sentir, mesmo aqueles que recusavam o convite notavam a memória carregada de significados e lembranças.
Era mês de abril, na agência publicitária que atuava, estava um frenesi de preparar a campanha para o dia dos namorados. Havia pressa, uma urgência constante de construir paixões e amores, aliando aos produtos mais lucrativos em cada campanha. Afinal, qual a razão de pensar sobre amor e paixões se a publicidade pode fazer isso para você. Que missão mais “nobre”, comunicar as pessoas se elas não presentearem não amam, se não comprarem o novo iphone para fazer as mesmas postagens não gosta mais da pessoa. Se não usarem os novos filtres para esconder as imperfeições não é sincero, não cuida. Esse é o criativo da empresa, criar uma necessidade que nunca esteve ali, e, irá desaparecer no momento seguinte da compra. Minutos de satisfação muito bem parcelado no cartão de crédito. Suaves prestações de satisfação, preenchendo a vida até a próxima campanha publicitária.
Paixões, não são apenas incêndios. Algumas são infiltrações. Isso de longe combinava com alguma campanha, mas fazia pelos menos naquele momento muito sentido.
À tarde, o céu mudou sem anúncio. Nuvens se formaram, depois se dispersaram. A luz entrou diferente pela janela. Ele notou. Não comentou. Certas percepções não precisam circular. E, sempre é mágico e apaixonante olhar para o céu, nem todos os dias é possível, muitos poucos hoje enxergam que ele está lá. É mais fácil ver o céu na tela do celular do que ao vivo pelos próprios olhos. Existem tantos filtros, que filtram os nutrientes de vida, escolhendo as cores. Como afirmou certo designer numa palestra que a empresa incorporou como verdade
– "As paletas de cores que oferecemos, e, os filtros que oferecemos são mais reais do que a própria realidade”. – O real só existe por ser muito bem modificado.
Como pombos em busca de migalhas, muitos vivem suas paixões. Esqueceram de voar alto, acostumados a buscar e esperar migalhas. Tudo funcional, tudo proposital.
Paixões e amores muitas vezes são buscas constantes de migalhas. Mas, para aqueles que permitem voar alto, são infinitudes, são movimentos, são voos, são vidas em plenitude, mesmo que aparentemente distantes.