Paixão de Janeiro (prefácio)

| | Rose Correia
Publicado em 03 de Novembro de 2026 ás 07h 05min

Prefácio

 

O que a viagem desperta

 

Por Dolores Flor

 

Há partidas que começam muito antes de uma 

mala ser fechada. Nascem no cansaço acumulado 

entre os compromissos, numa vontade adiada, na 

percepção de que a vida pede um espaço que a rotina 

já não oferece. Quem parte nessas circunstâncias leva 

consigo perguntas que nenhuma paisagem pode 

responder sozinha. Ainda assim, atravessar outros 

lugares pode favorecer uma escuta: aquela que nos 

permite reconhecer desejos antes silenciados e 

reconsiderar os caminhos que vínhamos seguindo.

Em Paixão de Janeiro, Rosenilda Aparecida 

Correia acompanha Laura numa viagem atravessada 

por lembranças, descobertas e possibilidades 

afetivas. Mulher, mãe e profissional, a personagem se 

permite sair do ambiente conhecido e experimentar 

a própria companhia em outros cenários. Há, nesse 

gesto, uma questão próxima de muitas mulheres: 

como reservar lugar para os próprios desejos depois 

de tanto tempo dedicado às responsabilidades e às 

necessidades de outras pessoas? Ao acompanhar seus 

passos, somos convidados a pensar sobre o direito 

de escolher, sobre o receio de se expor ao 

desconhecido e sobre aquilo que ainda esperamos 

viver.

É durante esse percurso que a aproximação 

com Charlie introduz novas expectativas. As 

conversas, a curiosidade e o desejo passam a 

participar da viagem, trazendo à experiência de Laura 

uma dimensão que ela não poderia organizar com a 

precisão de seus compromissos profissionais. O 

encontro amoroso abre, assim, uma passagem para 

refletir sobre a distância entre aquilo que sentimos e 

aquilo que conseguimos construir. Nem sempre a 

intensidade oferece respostas; por vezes, deixa 

perguntas que nos acompanham quando retornamos 

à casa, ao trabalho e aos dias comuns.

Janeiro reúne, no título, a promessa dos 

começos e a memória de um encontro. Embora o 

calendário avance, certas experiências continuam a 

ocupar um lugar íntimo, reaparecendo numa 

conversa, num aroma ou no intervalo de uma tarefa 

cotidiana. Ao redor dessa permanência, a narrativa 

também se aproxima das perdas e das tentativas de 

prosseguir. Laura precisa conviver com o que a vida 

lhe apresenta, enquanto descobre que uma nova 

escolha pode carregar tanto esperança quanto receio. 

Seu caminho permite considerar a delicadeza desse 

movimento, que cada pessoa realiza a seu tempo.

Entre os deslocamentos e os vínculos que 

atravessam a história, permanece a pergunta sobre o lugar que uma mulher concede a si mesma. Os filhos, 

o trabalho, os afetos e os projetos compõem uma 

existência que continua a pedir atenção, mesmo 

quando uma lembrança amorosa parece tomar todos 

os espaços. É nesse convívio entre desejo e vida 

cotidiana que a leitura pode encontrar ressonância: 

naquilo que reconhecemos de nossas próprias 

esperas, nas decisões que adiamos e na coragem que, 

algumas vezes, precisamos reunir para seguir.

Ao abrir estas páginas, o leitor encontrará a 

trajetória de uma mulher que se dispõe a viver 

experiências cujas consequências ainda desconhece. 

Acompanhar Laura é também se aproximar dessa 

condição tão humana de escolher sem possuir todas 

as garantias. Talvez seja essa uma das perguntas que 

sua viagem nos deixa: quanto da vida ainda pode 

acontecer quando concedemos aos nossos desejos a 

oportunidade de serem ouvidos?

 

Boa Leitura!

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