Prefácio
O que a viagem desperta
Por Dolores Flor
Há partidas que começam muito antes de uma
mala ser fechada. Nascem no cansaço acumulado
entre os compromissos, numa vontade adiada, na
percepção de que a vida pede um espaço que a rotina
já não oferece. Quem parte nessas circunstâncias leva
consigo perguntas que nenhuma paisagem pode
responder sozinha. Ainda assim, atravessar outros
lugares pode favorecer uma escuta: aquela que nos
permite reconhecer desejos antes silenciados e
reconsiderar os caminhos que vínhamos seguindo.
Em Paixão de Janeiro, Rosenilda Aparecida
Correia acompanha Laura numa viagem atravessada
por lembranças, descobertas e possibilidades
afetivas. Mulher, mãe e profissional, a personagem se
permite sair do ambiente conhecido e experimentar
a própria companhia em outros cenários. Há, nesse
gesto, uma questão próxima de muitas mulheres:
como reservar lugar para os próprios desejos depois
de tanto tempo dedicado às responsabilidades e às
necessidades de outras pessoas? Ao acompanhar seus
passos, somos convidados a pensar sobre o direito
de escolher, sobre o receio de se expor ao
desconhecido e sobre aquilo que ainda esperamos
viver.
É durante esse percurso que a aproximação
com Charlie introduz novas expectativas. As
conversas, a curiosidade e o desejo passam a
participar da viagem, trazendo à experiência de Laura
uma dimensão que ela não poderia organizar com a
precisão de seus compromissos profissionais. O
encontro amoroso abre, assim, uma passagem para
refletir sobre a distância entre aquilo que sentimos e
aquilo que conseguimos construir. Nem sempre a
intensidade oferece respostas; por vezes, deixa
perguntas que nos acompanham quando retornamos
à casa, ao trabalho e aos dias comuns.
Janeiro reúne, no título, a promessa dos
começos e a memória de um encontro. Embora o
calendário avance, certas experiências continuam a
ocupar um lugar íntimo, reaparecendo numa
conversa, num aroma ou no intervalo de uma tarefa
cotidiana. Ao redor dessa permanência, a narrativa
também se aproxima das perdas e das tentativas de
prosseguir. Laura precisa conviver com o que a vida
lhe apresenta, enquanto descobre que uma nova
escolha pode carregar tanto esperança quanto receio.
Seu caminho permite considerar a delicadeza desse
movimento, que cada pessoa realiza a seu tempo.
Entre os deslocamentos e os vínculos que
atravessam a história, permanece a pergunta sobre o lugar que uma mulher concede a si mesma. Os filhos,
o trabalho, os afetos e os projetos compõem uma
existência que continua a pedir atenção, mesmo
quando uma lembrança amorosa parece tomar todos
os espaços. É nesse convívio entre desejo e vida
cotidiana que a leitura pode encontrar ressonância:
naquilo que reconhecemos de nossas próprias
esperas, nas decisões que adiamos e na coragem que,
algumas vezes, precisamos reunir para seguir.
Ao abrir estas páginas, o leitor encontrará a
trajetória de uma mulher que se dispõe a viver
experiências cujas consequências ainda desconhece.
Acompanhar Laura é também se aproximar dessa
condição tão humana de escolher sem possuir todas
as garantias. Talvez seja essa uma das perguntas que
sua viagem nos deixa: quanto da vida ainda pode
acontecer quando concedemos aos nossos desejos a
oportunidade de serem ouvidos?
Boa Leitura!