Os versos que o tempo beijou e matou antes de te conhecer
| Poesia Lírica | 2026/8 Antologia A quem ainda escrevo? | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 03 de Agosto de 2026 ás 11h 38min
. Os Versos que o Tempo Beijou e Matou Antes de Te Conhecer
Rosy Neves
Meu amado,
Há versos que nasceram antes do teu nome alcançar os meus lábios. Eram versos antigos, tecidos pelo vento entre os minaretes adormecidos, onde a lua derramava prata sobre as águas silenciosas do Bósforo.
O tempo os beijou com infinita ternura... e, logo depois, matou-os.
Morreram sem conhecer a luz dos teus olhos.
Quantas cartas escrevi às sombras, sem saber que elas procuravam apenas o caminho até ti. Quantas primaveras deixei escapar entre os dedos, enquanto as romãs amadureciam nos jardins esquecidos e os rouxinóis cantavam para um amor que ainda não possuía rosto.
Se eu tivesse conhecido teu coração antes, teria pedido às estrelas que interrompessem a própria viagem. Teria suplicado ao mar que guardasse todas as tempestades para outro século. Assim, nenhuma lágrima pisaria sobre os jardins da minha alma.
Mas o destino prefere escrever com tinta de silêncio.
Hoje compreendo que cada tristeza foi uma estrada. Cada ausência era uma ponte invisível conduzindo-me ao instante em que teu olhar pisaria o meu como uma oração antiga.
Agora, quando a noite cobre os telhados da cidade e os sinos distantes se confundem com o chamado do vento, sinto que aqueles versos mortos ainda respiram. Não como lembranças, mas como pássaros que retornam ao ninho depois de atravessarem muitos invernos.
Talvez o tempo não os tenha destruído.
Talvez apenas os tenha escondido em seu peito, esperando o dia em que teu nome pudesse devolvê-los à vida.
Se um dia eu partir antes de ti, procura-me onde o céu beija o mar. Estarei ali, escrevendo teu nome sobre as águas eternas, enquanto o vento leva minhas palavras para além dos séculos.
Porque há amores que começam tarde para os homens...
...mas sempre chegam na hora exata da eternidade.
Com a ternura de quem esperou muitas vidas,
Aquela que encontrou teu nome depois que o tempo beijou e matou todos os outros versos.
Comentários
Esta é uma carta que evoca a resignação da dor e o sentimento transcendental. Um lídimo amor que ultrapassa o tempo físico e a própria mortalidade!