Há em você uma ternura recôndita,
um modo de chegar sem alarde,
e a tarde, antes tão minha,
já se demora em sua companhia.
Sua presença tem a tessitura
das coisas que o tempo não desfaz.
Às vezes, basta uma palavra sua
para que a quietude se ilumine.
O que não digo ganha contorno,
sobe aos lábios, quase se revela;
depois recolho essa confidência
como quem protege uma chama do vento.
Há uma doçura inefável
em saber que você existe
e atravessa os dias levando consigo
esse olhar em que me reconheço.
Até sua ausência me enleva
quando a lembrança restitui seu rosto.
Mas há portas, nomes, outras vidas,
e o cuidado de não ferir ninguém.
Por isso a mão se demora junto ao corpo,
a despedida vem antes da vontade,
e seguimos com tanto por dizer
sob a aparência serena dos dias.
Ainda assim, sua presença se insinua
no intervalo mais distraído das horas.
Diáfana, atravessa meus pensamentos;
indelével, permanece depois.
E o coração, que conhece os limites,
não aprende a sentir pela metade.
Se um dia meus olhos demorarem
um pouco mais nos seus,
acolha o que houver nesse silêncio.
Será minha forma mais inteira
de lhe confiar o que guardo
quando ninguém mais pode ouvir.