Onde as Respostas Ainda Não Moram
| | 2026/07 Antologia Quando o verso pergunta | Jô RodriguesPublicado em 17 de Julho de 2026 ás 16h 21min
Onde as Respostas Ainda Não Moram
Há caminhos que percorro por dentro
onde nem a razão ousa acender a luz.
São trilhas feitas de espera,
de desejos que ainda aprendem seus nomes
e de sonhos que recusam qualquer pressa.
É nesse espaço silencioso
que teu nome floresce sem pedir licença,
como quem conhece o caminho da primavera
antes mesmo que as flores despertem
para a delicadeza da manhã.
Não te amo pelas certezas.
Amo-te pelos intervalos,
pelas perguntas que tua ausência escreve
nas margens dos meus dias,
e pelas esperanças que tua lembrança acende
quando a noite se demora.
Há perguntas que não desejam respostas.
Querem apenas permanecer vivas,
como estrelas que brilham
porque nunca alcançam a terra,
mas continuam iluminando quem acredita.
Talvez seja assim o amor:
uma casa construída de janelas abertas,
onde o vento entra trazendo memórias,
e cada lembrança encontra um canto
para repousar sem fazer ruído.
Quando penso em ti,
não procuro explicações.
Recolho o perfume invisível
das palavras que nunca dissemos,
e descubro que o silêncio
também sabe escrever cartas.
Se um dia a vida resolver responder
às perguntas que hoje me atravessam,
talvez eu sorria com a serenidade
de quem compreendeu tarde
que algumas verdades nascem pequenas
e levam uma existência inteira para florescer.
Até lá, seguirei caminhando
com o coração entreaberto,
cultivando esse jardim de incertezas
onde tua lembrança repousa
como um pássaro que escolheu ficar.
Porque é justamente
onde as respostas ainda não moram
que o amor aprende a existir
sem prometer eternidades,
mas oferecendo, a cada amanhecer,
a mais bonita das esperanças:
a de que sentir, às vezes,
é muito mais verdadeiro
do que compreender.