Onde a palavra atravessa o infinito

Poemas | | Jô Rodrigues
Publicado em 18 de Julho de 2026 ás 12h 30min

Há estradas que terminam.

 

As palavras, não.

 

Elas continuam caminhando mesmo quando seus autores já recolheram o silêncio para descansar.

 

Carrego dentro de mim um território feito de lembranças. Algumas têm o perfume da infância, outras o gosto salgado das despedidas. Todas, sem exceção, aprenderam a falar antes mesmo de encontrarem o papel.

 

Foi assim que compreendi: escrever não é construir frases.

 

É atravessar a própria existência.

 

Cada palavra transporta um pedaço daquilo que fomos, do que perdemos, do que salvamos e da esperança que insistiu em permanecer quando tudo parecia partir.

 

Há sonhos que envelhecem esperando coragem.

Há afetos que sobrevivem escondidos entre vírgulas.

Há identidades que só descobrem o próprio nome depois de atravessarem muitos silêncios.

A literatura nasce exatamente nesse instante: quando a alma decide deixar de ser abrigo para tornar-se caminho.

 

Então, a palavra parte.

Caminha por paisagens desconhecidas.

Encontra olhos que jamais vimos.

Habita corações que nunca imaginamos alcançar.

E, sem pedir licença, transforma quem a recebe.

 

Talvez essa seja sua forma mais bonita de existir: fazer da memória uma ponte, da esperança uma direção e do recomeço um lugar onde a vida reaprende a florescer.

 

Escrever é aceitar que toda travessia muda o viajante.

Mas também muda o caminho.

Porque, depois que uma palavra é escrita com verdade, ela nunca mais pertence apenas a quem a escreveu.

Ela passa a pertencer ao infinito.

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