O velho mar

Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de Meneses
Publicado em 15 de Maio de 2026 ás 13h 16min

O Velho Mar

 

de Rosy Neves

 

Diz a lenda que o mar é um velho cansado.

Mora sozinho na beira do mundo,

sentado numa cadeira feita de naufrágios antigos,

enrolado num manto de neblina e sal.

 

Tem a barba bordada de espumas,

as mãos frias de marés eternas,

e os olhos…

ah, os olhos do mar

vivem borrados de insônias.

 

Ninguém sabe ao certo

há quantos séculos ele não dorme.

Talvez desde o primeiro adeus humano.

Talvez desde que a primeira estrela caiu dentro dele

como uma lágrima de Deus.

 

Os pescadores dizem

que durante a madrugada

o velho mar resmunga sozinho,

rabugento, ferido de luas,

reclamando das embarcações

que rasgam seu peito de água

e partem sem pedir licença.

 

Mas eu acho

que o mar apenas sente saudades.

Saudades de alguma coisa

que nem mesmo a eternidade consegue lembrar.

 

Sua insônia é um farol aceso noite e dia.

Nunca se apaga.

Mesmo nas tempestades mais violentas,

mesmo quando o céu desaba em trovões,

há dentro dele

uma chama invisível ardendo.

Um fragmento de eternidade.

 

Às vezes, caminho pela praia em silêncio

e escuto o velho mar respirando cansado,

como quem carrega nos ombros

todos os segredos do universo.

 

As ondas vão e voltam

como pensamentos tristes.

E cada concha esquecida na areia

parece guardar um pedaço de sua memória.

 

Então compreendo:

o mar não dorme

porque vigia os sonhos do mundo.

E talvez seja por isso

que seus olhos sejam tão profundos,

tão antigos,

tão cheios de noites.

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