O universo do seu olhar
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 19 de Março de 2026 ás 20h 49min
As linhas dos horizontes,
arquiteturas invisíveis
que a luz tateia ao longe,
onde o azul encontra o nada
e promete tudo.
Elas se esticam,
fios tenazes de percepção,
moldando o que a vista alcança,
a promessa da continuidade,
o mapa que não se dobra.
E nessas linhas,
no limite onde o céu parece parar,
eu vejo o contorno fino,
a borda tênue
que delimita a dança atômica.
As moléculas do universo,
pequenos pontos de energia,
vibrando em silêncio cósmico,
não têm fronteiras visíveis:
são pura fluidez, puro mistério.
Mas o olhar,
este pequeno telescópio da alma,
tenta impor ordem ao caos leve,
desenha réguas imaginárias
sobre o informe.
Seus olhos, espelhos profundos,
não refletem apenas o presente,
mas a vasta teia estelar,
a poeira de estrelas condensada,
a física que nos sustenta.
No arco da sua íris,
o horizonte se curva de novo,
não mais o plano terrestre,
mas a curva esférica
do meu próprio universo particular.
As linhas que você traça
com o simples ato de enxergar
definem o espaço que ocupamos,
separando o que é ser
do que é ser sonhado.
Cada molécula que compõe
a sombra suave sob seu cílio,
cada átomo que compõe
o ar que sua respiração move,
é visível para mim
porque você está olhando.
Seu olhar é o pincel
que pinta a vastidão,
dá forma ao indefinível,
transforma o borrão galáctico
em paisagem compreensível.
As linhas do horizonte
são apenas o primeiro esboço,
o rascunho da margem.
O desenho final, o acabamento perfeito,
acontece na quietude atenta
do seu olhar focado.
É ali, no foco suave,
que a infinitude se comprime
e a matéria se organiza,
seguindo a geometria secreta
que só a sua percepção revela.
O universo se dobra
para caber na curva do seu ver,
e as moléculas, livres e errantes,
encontram um lugar seguro,
um contorno desenhado
no jardim da sua visão.
E eu observo o horizonte
que você desenha,
e nele encontro o meu lugar:
pequena molécula
contornada pela beleza
do seu olhar.