O último dia de um bravo guerreiro!
Inverno | | Margarete Dalva Anschau NunesPublicado em 23 de Junho de 2026 ás 15h 05min
Há datas que se fixam na memória não pela dor que trazem, mas pela densidade do amor que nelas se manifestou. O dia 16 de outubro de 2023 foi um desses dias em que o tempo pareceu correr mais devagar, esticando cada minuto para que coubesse nele uma vida inteira de gratidão.
Quando cheguei ao hospital, às sete da manhã, o quarto guardava um silêncio sereno. Você estava calmo, já alimentado. Com a delicadeza de quem cuida de um tesouro frágil, molhei seus lábios com água, usando um palito e gaze, repetindo o ritual que havíamos adotado. Ali, a rotina do hospital se transformou no nosso santuário particular.
Para que o ambiente do hospital não apagasse a sua essência, decidi trazer a nossa casa para dentro daquele quarto. Como você bem gostava, logo na primeira hora, enchi o espaço com a música caipira raiz. Quando os acordes de "As Velhas Cartas", de Tonico e Tinoco, começaram a tocar, o tempo viajou de volta ao passado, resgatando o início do seu namoro com a mamãe. Era a trilha sonora de um amor que gerou a nossa história.
O dia avançou em movimentos musicais, como uma missa rezada em forma de melodia. No segundo momento, as 15 melhores do Padre Zezinho trouxeram a fé que sempre nos sustentou. Depois, vieram os sons calmos da natureza: o barulho da chuva e o canto dos pássaros, lembrando os dias bonitos após a tempestade que você tanto apreciava. Por fim, as músicas de cura para o corpo, a mente e a alma selaram o ambiente com uma paz profunda.
Entre uma melodia e outra, curvei-me sobre você e sussurrei as palavras que precisavam ser ditas, aquelas que desatam qualquer nó: "Nós te amamos muito. Nós somos gratos. Nós te perdoamos e te pedimos perdão. Gratidão por tudo que fez por nós". E, num desabafo íntimo, completei: "Papai, sou sua filha que não gosta de falar muito, mas estou aqui para você, estou aqui com você e estarei te cuidando. Gratidão por tudo".
Próximo ao meio-dia, o mistério da despedida começou a se desenhar. Alguém comentou no quarto que você parecia estar esperando por alguém. Lembrei-me do meu irmão, o Vande, que morava longe. Pedi um áudio e, assim que ele enviou, aproximei o celular do seu ouvido. Repeti a voz do seu filho várias vezes, explicando que ele não conseguiria vir agora, só no final do ano, mas que o amor dele estava ali. Às 14 horas, a visita da nora Rosa e da neta Thaís, seguida pelo seu filho Claudenir, trouxe mais calor ao ambiente.
Mas o corpo físico começava a dar seus sinais de partida. Ao segurar suas mãos, notei que a ponta dos seus dedos estava gelada. Um nó apertou meu peito. Como podia ser, pai? Você sempre foi aquele que aquecia as minhas mãos quando eu chegava, e agora as minhas, mais quentes, não conseguiam aquecer as suas. Cobri você com o cobertor, mas ao tocar seus pés, vi que o frio já havia subido. Quando a saturação marcou um número fora do normal no monitor, meu coração, em silêncio, compreendeu: você estava se desprendendo do plano físico para virar uma estrelinha no céu.
Deixei o hospital às 20 horas, sabendo que a vigília do amor continuaria. Minha irmã e minha cunhada assumiram o posto. Minha irmã também relembrou o irmão que estava longe, dando o conforto final de que todos os ciclos haviam se fechado. E assim, às 22 horas, você partiu mansamente para morar com Jesus.
Antes de você ir, nós lhe fizemos uma promessa solene: manteríamos o amor, a união, a paz e, acima de tudo, cuidaríamos uns dos outros, especialmente da mamãe.
Sabe, pai, eu sempre tive uma afinidade especial com você. Você foi o meu maior incentivador, aquele que apoiava os meus projetos sem hesitar. Eu me sentia a pessoa mais importante do mundo, "toda toda", quando recebia um elogio seu e da mamãe. Esse orgulho e esse amor não se apagam com a partida. O dia 16 de outubro não foi o fim; foi o dia em que o seu amor se tornou eterno em nós. Nós, filhos amamos vocês infinitamente.
Livro: Memórias