O TELEGRAMA QUE MUDOU DE DESTINATÁRIO
| Crônica | 2026/05 Antologia Dias escritos em prosa | Edson BentoPublicado em 09 de Maio de 2026 ás 10h 55min
O Telegrama que Mudou de Destinatário
Trabalhar entregando telegrama mão própria é um serviço que não admite distração. Você é a mensagem. Se erra o endereço, erra a vida de alguém.
E foi exatamente isso que eu fiz.
O telegrama tinha vindo da amante do soldado. O endereço que constava era o quartel. Só que eu sabia onde ele morava de verdade. Conhecia a casa, a rua, a rotina. Na cabeça de carteiro velho, “mão própria” significava entregar na mão certa, na casa certa.
Então entreguei na casa. Na mão da esposa.
Não preciso descrever o que aconteceu depois. A palavra “transtorno” fica pequena. Foi bomba atômica em casamento que já vivia de faísca. A separação veio rápida, cirúrgica, sem direito a recurso.
Eu saí de lá achando que ia sair também da empresa. Demissão era o mínimo que eu esperava. Telegrama errado, vida conjugal arruinada, risco na carteira.
Semanas depois encontro o soldado na rua. Ele para, olha pra mim e faz o que eu menos esperava: agradece.
Segundo ele, eu tinha dado o primeiro passo que ele não tinha coragem de dar. Eu tinha feito o trabalho sujo de abrir o jogo e tirar ele daquela vida dupla. Agora ele podia assumir a amante sem viver de mentira.
Fiquei ali, sem saber se pedia desculpa ou aceitava o “obrigado”. No fim, sorri sem jeito e fui embora.
O engraçado da coisa é que no Correios a gente entrega carta, encomenda, aviso. Mas de vez em quando a gente entrega destino. Mesmo sem querer.
E o pior: às vezes o destinatário agradece.
Edbento