O Silêncio da UTI e o Peso de um "Por Quê"

Ensaios | | Luciana Kelm
Publicado em 20 de Março de 2026 ás 05h 10min

O cheiro de hospital ainda é um gatilho que me transporta instantaneamente, para aquela UTI. Matheus tinha apenas 10 anos, mas o corpo pequeno, cercado por fios e monitores, parecia carregar o peso do mundo. Foi ali, entre o bip constante das máquinas, que ele me lançou o golpe mais duro que já recebi:

 “Mãe, eu fui uma criança malvada? Foi por isso que eu vim parar aqui?”

Naquele instante, o chão desapareceu. O silêncio que se seguiu no quarto não foi por falta de resposta, mas porque as palavras se afogaram na minha garganta. A negação é um labirinto escuro e frio; eu olhava para o meu filho e meu pensamento gritava em revolta: “Por que com ele?”. Como a vida podia ser tão injusta com uma criança que mal havia começado a entender o mundo?

Mas, enquanto o silêncio falava alto, uma clareza dolorosa me atingiu, trazendo o questionamento que muitos evitam: “E por que não com ele?”. Ali, entendi que a doença não escolhe mérito, comportamento ou idade. Ninguém está imune à fragilidade da vida.

Aceitar o Diabetes Mellitus Tipo 1 foi o luto mais difícil que vivi. Foi enterrar a infância "normal" que planejei para ele e renascer como "mãe pâncreas", aprendendo a ler números e contagens de carboidratos como se fossem poesia de sobrevivência.

Hoje, aos 16 anos, o Matheus é a prova de que não houve maldade, mas sim uma convocação para uma jornada de força absurda. O diagnóstico não foi o fim, mas o prólogo de uma história que escrevemos juntos, um dia (e uma glicemia) de cada vez.

 

Livro: Meu Doce Matheus

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