O Que Veio Depois
Ensaios | | Luciana Kelm | escritoraPublicado em 17 de Julho de 2026 ás 11h 08min
Não existe certidão de óbito para quem a gente já foi. Ninguém manda flores, não tem velório e as pessoas na rua continuam me cumprimentando pelo nome de sempre. Elas olham para mim esperando encontrar aquele espelho antigo, o reflexo manso que guardam na memória. Mas eu sei, com uma certeza que sinto rasgar a pele, que aquela mulher morreu.
Ela não aguentou.
Faltou o ar quando o chão sumiu. Ou talvez ela só tenha cansado de carregar malas cheias de pedras que nunca foram dela. Ela desabou sob o peso daqueles dias em que precisou ser forte demais, por tempo demais. Engoliu o próprio choro para não quebrar o silêncio dos outros. Ela ruiu.
O que o mundo vê agora pagar as contas, caminhar pelas ruas e sorrir nas fotos não é um fantasma.
É o que veio depois.
Eu sou o que sobrou das minhas próprias cinzas. Existe uma beleza violenta e inacreditável em se tornar a própria sucessora. Quem me conhece de fora procura os traços antigos. O jeito de ceder. A voz que pedia desculpas por existir. Não encontram mais.
Onde antes morava a dúvida, hoje existe uma matéria moldada pelo fogo. Uma postura nova. Um olhar limpo, que aprendeu a dizer "não" como quem protege um território sagrado.
Esta troca de pele não acontece sem dor.
Tornar-se o que vem depois exige a coragem de enterrar o passado em praça pública e seguir em frente. Sem explicações. É uma faxina bruta na alma. Você descobre que o apego àquela versão antiga era justamente o que te mantinha presa no fundo do poço. Foi preciso que ela ficasse pelo caminho para que a verdadeira força pudesse, finalmente, aparecer.
Eu não sou uma evolução pacífica. Sou uma ruptura necessária.
Hoje, quando reparam nos meus passos e dizem "você mudou", eu apenas sorrio em silêncio. As pessoas não fazem ideia do tamanho do milagre que é estar de pé. Eu não mudei. Eu renasci dos pedaços de alguém que precisou sumir para que eu pudesse voar.
A antiga Luciana não sobreviveu ao peso do mundo. Eu sou o que veio depois.
E daqui de cima, o céu é meu.