O que repousou no meu leito.

| Prosa Poética | 2026/9 Antologia O invisível que a palavra revela | Keila Rackel Tavares
Publicado em 05 de Setembro de 2026 ás 10h 30min

Ontem tive um pesadelo desses que insistem em criar raízes no corpo e não querem mais sair. Tentei, com as mãos da imaginação, arrancar a sua inteireza. 

Queria ajudá-lo a afundar no esquecimento, ou a ganhar uma forma mansa, que não trouxesse nojo, repulsa ou espanto. Pois, embora houvesse ali seus lados grotescos, para mim aquilo era coisa de iluminar o sono, era trivial. Uma epifania que brotou direto no travesseiro. 

Talvez por isso, mesmo que a cena fosse feita de assombros — cheia de aranhas-caranguejeiras, imensas, de um preto retinto e com uma escuridão fora do normal...Eu não guardei medo, nem asco, nem desespero. 

O cenário convidava ao susto: eu morava temporariamente numa cozinha esquecida de limpeza, toda tecida por teias antigas e com louças que já faziam aniversário de poeira.

Quando abri a torneira, a água primeiro cuspiu terra, num esguicho que parecia um gemido de garganta seca. Só depois a água veio clareando as coisas. 

Comecei a desatar aquela sujeira do mundo.

Foi quando as aranhas, carregadas de seus venenos quietos, resolveram me rodear. 

Subiram pelas minhas pernas, caminharam pelo meu corpo inteiro, fizeram morada até nos meus cabelos. Mas não me atacaram. 

Elas descobriram que eu apenas cumpria o meu ofício de dar asseio às solidões. 

E, com uma estranheza cheia de respeito, recolheram suas patas e me deixaram em paz na minha solidão.

Keila Rackel Tavares.

São Luís do Maranhão 04/09/2026

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