O QUE PERMANECE
| | 2026/4 Antologia Breves narrativas do cotidiano: entre histórias e versos do dia a dia | Isolti CossetinPublicado em 05 de Abril de 2026 ás 17h 51min
O QUE PERMANECE
Diziam, em tom de meio riso, meio descrédito, que ela tinha o dom de um rei antigo.
Mas não era ouro o que nascia de suas mãos.
Era amor.
Enquanto o tal rei Midas transformava tudo em metal rígido, frio, intocável, ela fazia o contrário: devolvia calor ao que já parecia perdido.
Era professora.
E quem vê de fora, talvez não entenda: não há magia nas salas de aula, dizem.
Há cansaço, indisciplina, olhares vazios, dias repetidos.
Há desistências silenciosas que ninguém registra.
Mas ela ficava.
Havia algo em seu jeito de olhar que recusava rótulos.
Onde diziam “caso perdido”, ela via pausa.
Onde diziam “desinteresse”, ela via ausência de sentido.
E onde havia silêncio, ela semeava palavra.
Não com imposição, mas com insistência mansa,
dessas que não gritam, mas não desistem.
Um dia, diante de uma turma descrita por muitos como fria, distante, inalcançável e indisciplinada,
ela fez o que sempre fez: acreditou.
Levou poesia como quem leva água a um terreno seco.
Não esperava flores imediatas, mas sabia que, em algum lugar, havia raiz.
No começo, nada.
Olhares dispersos, corpos presentes, almas ausentes.
Mas ela continuou.
Palavra por palavra.
Verso por verso.
Afeto por afeto.
Até que, quase imperceptivelmente, algo mudou.
Um aluno escreveu.
Outro arriscou.
Um terceiro leu em voz baixa, como quem testa o próprio sentir.
E, quando deram por si, já não eram os mesmos.
O livro nasceu assim:
não de genialidade súbita,
mas de encontros.
De uma professora que tocava sem ferir,
e de alunos que, pela primeira vez,
se sentiram vistos.
Anos depois, já distante daquela sala,
ela encontrou um deles.
Ele se aproximou com palavras simples,
mas carregadas de um peso bonito:
— Professora, aquela atividade… mudou minha vida. Eu escrevo até hoje.
E naquele instante, ela soube.
Nenhuma transformação faz barulho quando acontece.
Mas ecoa, às vezes, anos depois.
Não, ela não transformava em ouro.
O ouro, afinal, não sente, não muda, não cresce.
Ela transformava em vida.
E tudo o que tocava,
mesmo quando parecia tarde,
mesmo quando ninguém mais acreditava:
virava amor.
Comentários
Isolti nos traz, através de seu conto, uma narrativa reflexiva e humanista, onde nos mostra o papel transformador da educação e do afeto!
Lorde Égamo | 05/04/2026 ás 18:42